Tentem um pouco de gentileza

«Nada pode tornar a nossa vida ou a vida das outras pessoas mais bela do que a perpétua gentileza.» – Lev Tolstoi

Vivo num segundo andar, mas deixei de usar o elevador há alguns anos. Um dia destes, saí de casa para ir ao supermercado e quando descia o último degrau da escadaria que me leva ao rés-do-chão, dei de caras com a porta do elevador que se abria. Saiu de lá um homem, que nunca tinha visto antes, com uma ferramenta qualquer na mão. Depreendi que estivesse a trabalhar no apartamento em obras. Por uma fracção de segundos ficámos face a face e olhámo-nos olhos nos olhos. Não trocámos palavra, o que foi um mau prenúncio. Depois, ele seguiu à minha frente em direcção à porta do edifício e eu fui no seu encalce, dois passos atrás. O homem aproximou-se da porta, abriu-a, saiu, largou-a e deixou-a bater a centímetros do meu nariz.

Fiquei perplexa. E furiosa. Mas decidi não perder a compostura. Abri e fechei a porta com calma, aproximei-me do homem, que se preparava para partir num automóvel, e em voz alta e tom irónico disse-lhe: “Muito obrigada por me ter segurado a porta”. Foi a vez do cavalheiro ficar perplexo. Mas não demorou muito a perceber onde tinha falhado. Pediu-me desculpa como quem me fazia um especial favor. No passeio, gente apercebia-se da cena e abrandava o passo. Insisti: “Isso é que foi simpatia, heim!?”. Aí, o cavalheiro já não gostou. Voltou a pedir-me desculpa, mas com maus modos. Voltei-lhe as costas e segui o meu caminho.

Quando este episódio ocorreu, estava fresca na minha memória uma conversa tida com uma amiga numa tarde de café combinado na baixa. Foi num dos feriados do início de Dezembro e as ruas abarrotavam de turistas deliciados com a beleza da cidade e a simpatia dos portugueses, tão propalada quando falam de nós. Comentávamos o quanto a cidade tinha mudado para melhor, o quanto é bom para os nossos bolsos e para o nosso ego que gente estrangeira se enamore assim do Porto e de Portugal.

Mas a minha amiga insistia numa sensação de dissonância porque, dizia ela, no seu dia a dia, no trato com os seus concidadãos, de igual para igual e sem o deslumbre de uma passagem fugaz pela Invicta, não é simpatia que vê: antes egoísmo, alheamento e descortesia, porque todos nos estamos a fechar cada vez mais nas nossas bolhas e a olhar cada vez mais para os nossos umbigos, ignorando os estranhos que cruzam o nosso caminho. É o clássico “cada um por si” ou a variante “nem reparei”. E que fique claro, raros são os que vivem imunes a este fenómeno. Sou a primeira a dar a mão à palmatória.

Gosto de paradoxos. Instigam-me a olhar para certos aspectos da minha vida e da nossa vida colectiva num constante ir e voltar entre pontos de vista distintos. Ao pensar no que queria escrever neste texto, apercebi-me dum paradoxo muito do nosso tempo: se por um lado, no foro privado, vivemos na convicção de que temos tudo controlado ou na constante tentativa de tudo controlar em prol de uma vida melhor para nós e para a família que amamos, por outro, a nível colectivo, achamos que nada podemos fazer para mudar o mundo para melhor, que isso não está nas nossas mãos e que até os políticos — a quem delegamos essa tarefa por intermédio do voto como quem sacode a água do capote — têm manifestamente pouco poder para tal.

É neste contexto que me deparo com uma promoção fantástica e compro a 5€ um livro que estava na minha lista há três anos: A Revolução do Amor, do filósofo francês Luc Ferry. Sabia em traços gerais ao que ia, mas não podia adivinhar o quanto o livro faria sentido na fase da vida em que me encontro e as contribuições valiosas que tem adicionado às minhas reflexões sobre o “estado das coisas”, reflexões por vezes pontuadas por uma certa desesperança e falta de paciência para os outros. Foi, portanto, por causa de uma promoção que eu, optimista incorrigível que acredita piamente na capacidade individual para mudar o mundo, fui encontrar em Luc Ferry alguém muitíssimo mais optimista quanto ao caminho que a humanidade leva. Este é um dos seus argumentos:

“(…) as experiências mais fortes que vivemos na esfera da intimidade desde a invenção da união familiar amorosa [o autor refere-se ao casamento por amor em oposição ao casamento por conveniência] não nos concentram sobre nós mesmos de forma ‘individualista’ (…) É na verdade precisamente o contrário que se passa. Ainda há pouco, quando, numa família burguesa (…) uma jovem ficava grávida fora do casamento (…) as pessoas apressavam-se a fechar as portas e as janelas, a mentir ao exterior e, se possível, também no interior, para proteger as conveniências. A lógica do amor leva-nos a pouco e pouco até outros horizontes, a outras atitudes, a lógicas de compreensão mais abertas e, por isso mesmo, mais colectivas. Quando uma família conhece um acidente de percurso (…), o mais frequente, hoje em dia, é abrir-se a novas sensibilidades, a alargar mais do que a fechar o horizonte ­— no que o privado se torna cada vez mais um factor de abertura aos outros, portanto à esfera pública e não o inverso.”

Tudo isto para chegar ao que vos quero propor no início deste novo ano: um exercício mais simples, talvez, que o amor (alguns poderão achar estranha esta ideia de sair por aí “amando” desconhecidos), a empatia ou até o civismo (um valor mais abrangente, mais complexo, mais exigente). Proponho-vos que tentemos, no nosso dia a dia, abrirmo-nos a “outros horizontes, a outras atitudes, a lógicas de compreensão mais abertas (…) mais colectivas” sendo genuinamente gentis.

Vamos mudar o mundo ao segurar a porta a quem nos segue, a dar prioridade a pais com crianças ao entrar nos transportes públicos, a cumprimentar o motorista do autocarro, a elogiar o sorriso da menina do supermercado, a agradecer ao automobilista que pára na passadeira, a ceder passagem no trânsito, a desejar bom dia ao vizinho com cara de poucos amigos. Vamos mudar o mundo agradecendo ostensivamente a gentileza dos outros para connosco com sonoros “Obrigada!”, para que percebam o quanto apreciamos o seu gesto, o quanto estamos gratos por essa centelha que não devemos dar por garantida. E vamos mudar o mundo não desmoralizando quando a gentileza é esquecida por alguém ou quando os outros estranharem esta atitude, acharem que somos tolinhos ou mansos e se atreverem até a fazer troça.

A gentileza é altamente contagiosa. Um dia também os descrentes estarão do nosso lado.

Bom ano!