A linha surpreendente

«A vida é breve, a alma é vasta (…)» – Fernando Pessoa em Mensagem

Em Setembro de 2004 li Mala de senhora e outras histórias, de Clara Ferreira Alves. Dos doze contos que o livro contém, marcou-me um chamado Os Dias de Durban. Nesta história, uma mulher deprimida mata-se e deixa ao lado da cama um livro aberto de Fernando Pessoa. Ao procurar uma razão para a despedida súbita, o viúvo dá por si a folhear livros e descobre a obra do poeta. É então que aproveita um ano sabático e parte para Durban, a cidade onde Pessoa viveu quando era menino; a cidade que a sua mulher morta conhecia bem porque tinha nascido não muito longe dali, em Moçambique.

Foi por causa deste conto que, volvidos dez anos, também eu percorri as ruas daquela cidade à procura de indícios do poeta.

Na grande viagem que fiz em 2014, a ida à África do Sul não estava nos meus planos. Surgiu como alternativa à visita a Angola, já que as autoridades deste país não me facilitaram a obtenção de um visto de turista. Gosto de pensar que há males que vêm por bem: a nação arco-íris, como lhe chamou Nelson Mandela, é esplendorosa e apesar de todos os seus problemas graves, prefiro tê-la no meu currículo de viajante a ter o país agrilhoado de Zé Du. Depois de uma passagem breve por Joanesburgo e quatro dias de sonho no Kruguer Park, voei para Durban onde aterrei a meio de Julho. Pude, durante 5 dias, voltar a ver o Índico de que me tinha despedido prematuramente em Zanzibar. E pude, também, largar os agasalhos que me protegeram de temperaturas quase negativas nos dias de safari. Em Durban, quinhentos quilómetros a sul, o Inverno austral assemelha-se à Primavera do meu Algarve.

Na manhã do dia 17 de Julho eu e a Nilza, a minha companheira de viagem, deixámos o Bed & Breakfast no bairro de Melville para ir no encalce de Fernando Pessoa. Parti com o estômago cheio de ovos estrelados, bacon frito, feijão com molho de tomate, tomate assado, torradas e café. Nas mãos levava um mapa da cidade. Fomos primeiro em busca de uma das moradas do poeta, na antiga Ridge Road. Mas a casa já não existe e são poucos os indícios da rua que Pessoa terá conhecido no fim do Século XIX: dum lado e doutro da longa estrada vi apenas casas e prédios modernos rodeados por muros altos e arame farpado, bombas de gasolina, lojas e armazéns. Voltámos para trás e atravessámos a zona rica e branca de Essenwood para desembocar na St. Thomas Street. É aí que fica o Durban High School, onde Fernando Pessoa estudou entre 1899 e 1904.

Nuns semáforos, estávamos nós a tentar perceber se o colégio ficaria acima ou abaixo do cruzamento onde nos encontrávamos, fomos abordadas por uma mulher sexagenária, branca, de olhos claros e chamada Sandra — sim, Sandra como eu — que interrompeu a sua caminhada com bastões para nos oferecer ajuda. Intrigada com a nossa determinação em visitar um colégio exclusivo para rapazes, começou por avisar-nos que a instituição estava fechada por ocasião das férias de Inverno. Mas depois quis saber por que razão queríamos tanto lá ir. Quando lhe expliquei que éramos portuguesas, que estávamos a fazer uma volta ao mundo que tinha como mote a lusofonia e que queríamos conhecer a escola onde tinha estudado um dos nossos maiores poetas, Sandra abriu os olhos com o tamanho da surpresa: nunca tinha ouvida falar desse tal de Fernando Pessoa. Mas, contagiada pelo nosso entusiasmo e pela nossa história, fez questão de nos acompanhar até à entrada da escola fechada e ajudar-nos a conseguir autorização para uma visita.

Não foi preciso grande esforço: o porteiro, habituado à visita de portugueses com o mesmo propósito que o nosso, escancarou o sorriso e o portão e acompanhou-nos ele mesmo aos pontos mais significativos. Percorremos, então, os espaços amplos e estranhamente silenciosos da grande escola para avistar o painel de azulejos com uma estrofe de Pessoa inaugurado por Mário Soares, um retrato emoldurado desenhado por Júlio Pomar e, cá fora, em destaque num dos principais pátios do recinto, um busto do poeta em bronze. Desse ponto, avistava-se o campo relvado, lugar para partidas de râguebi e críquete disputadas entre alunos. E para lá dos muros da escola, a cidade de Durban a espraiar-se colina abaixo até ao oceano.

O último destino do nosso périplo pessoano em Durban era a baixa da cidade, onde fica a Praça Pessoa. Mas antes disso, fomos até ao apartamento da Sandra que nos convidou para tomar café, conhecer o seu marido e conversarmos mais sobre a aventura que eu e a Nilza havíamos começado quatro meses antes. Entre chávenas e bolachas, ainda tivemos tempo para ver fotos de família, saber dos filhos e dos netos, dos episódios mais felizes e das dificuldades ultrapassadas, assim como da paixão da Sandra pelas terapias alternativas. E rimo-nos desta nova coincidência: não só partilhávamos o nome, como tínhamos o Reiki em comum.  Por último, ainda procurámos na internet a localização exacta da Praça Pessoa, que tanto a Sandra como o marido desconheciam. Uma vez identificado o sítio, a Sandra ofereceu-nos boleia e partimos as três em direcção a um outro busto do poeta.

À medida que o carro se aproximou da baixa da cidade, percebemos que a Sandra não ia connosco apenas movida pela curiosidade: na verdade, não tinha qualquer intenção de nos deixar ir sós a uma zona de Durban que ela mesma não frequentava havia anos. Os edifícios degradados, o lixo e os sem-abrigo eram apenas três sinais do perigo latente. Nos quinze minutos que demorámos entre o parque de estacionamento, a praça e o regresso ao carro, não vimos um único branco e a forma como fomos olhadas enquanto registávamos o momento com fotografias apressadas acentuou a sensação de desconforto. Abandonámos o lugar rapidamente e Pessoa, rodeado de gente ociosa sentada no muro que delimita a praça, ficou de novo entregue a um anonimato que não merece.

Antes de nos despedirmos, ocorreu-me perguntar à Sandra se saberia de alguma actividade a que pudéssemos associar-nos no dia seguinte. A 18 de Julho assinala-se o Mandela Day e nesta data, que seria a do seu aniversário, pessoas em todo o globo e particularmente na África do Sul assumem a responsabilidade de contribuir para um mundo melhor levando a cabo uma boa acção em prol da comunidade. Ocorreu-lhe, nesse momento, levar-nos até ao hospício onde é voluntária há mais de vinte anos e onde providencia terapias alternativas aos internados. A maior parte das tarefas para o dia seguinte estavam distribuídas pelos muitos voluntários pontuais, mas o quarto dos brinquedos frequentado pelas crianças que acompanham familiares em dias de visita estava a precisar de uma atenção urgente. Na manhã seguinte ficámos encarregues de arrumá-lo.

Não foi coisa que tivesse demorado muito tempo: em pouco mais de hora e meia a divisão ficou organizada e os brinquedos irremediavelmente partidos colocados no lixo. Por essa altura, já a manhã estava a chegar ao fim, a Sandra veio ter comigo e perguntou-me se eu não gostaria de me juntar a ela numa última sessão de Reiki. O caso era particularmente delicado, já que o paciente, recém internado e muito jovem, tinha recusado qualquer ajuda noutras ocasiões. Mas naquele dia, o Dia de Mandela, um dia de esperança, ele disse que sim e eu entrei num quarto onde se morria.

Siabonga — Sia como toda a gente o chamava com carinho — era um menino de 18 anos, magérrimo, a quem tinham amputado um braço e que lutava com muita dor por cada golfada de oxigénio engarrafado que inspirava. Porque estava em tronco nu, pude ver que qualquer coisa artificial palpitava sob a pele do seu peito, junto ao coração. Ao pescoço trazia um daqueles colares multicoloridos feitos de elásticos, tão em voga na altura. Todo e qualquer movimento era feito com extrema lentidão e implicava um esforço sobre-humano: erguer o tronco com a ajuda de almofadas ou sentar-se na beira da cama provocava um sofrimento que a morfina já não atenuava. Encontrámo-lo visivelmente agitado, mas a música que a Sandra pôs a tocar, o incenso que perfumou o quarto e o calor das nossas mãos acalmaram-no aos poucos. De olhos quase sempre fechados e respiração serenada, falou apenas em duas ocasiões: pediu que a ventoinha fosse aproximada do seu rosto e elogiou o colorido das minhas pulseiras. Expliquei-lhe que as tinha comprado no decorrer da viagem e enumerei os países à medida que lhas mostrava. Quando deixámos o quarto, a Sandra alegrou-se pela ligação que se tinha estabelecido entre mim e ele. Ficou combinado que na segunda-feira seguinte, o meu último dia em Durban, voltaríamos juntas ao hospício para uma nova sessão de Reiki com Sia.

Nessa segunda-feira Sia já não deu pela nossa presença. A morfina tinha-o levado para uma espécie de limbo. Na extremidade da cama, coloquei as minhas mãos sob a planta dos seus pés enormes e calosos e já não me concentrei numa energia que viesse aliviar as suas dores; concentrei-me numa energia que pudesse abraçá-lo e levá-lo rapidamente. Antes de sair do quarto, disse à Sandra que tinha trazido uma pulseira para lhe oferecer. “Ele está a morrer, Sandra, não vai perceber”, disse-me. Mas já sentadas no carro, olhou para mim e perguntou “Queres ires dar-lhe a pulseira?”. Voltei para trás. No quarto, alguns familiares de Sia esperavam em silêncio pelo fim. Os rostos pediam alívio e supus que a luta tivesse sido lenta, longa. Dirigi-me à cama sem falar a ninguém, peguei no seu braço esquerdo e inanimado e coloquei-lhe no pulso uma pulseira trazida de Timor. E então, baixinho, falei-lhe da ilha, da luta do seu povo, chorei e despedi-me. O Sia morreu cerca de duas horas depois, quando eu me dirigia ao aeroporto para rumar à Cidade do Cabo.

Esta é a história de como, de forma simples e do nada, aconteceu na minha vida desenhar-se uma linha surpreendente que une para sempre cinco pessoas: Fernando, Sandra, Nelson, Sia e eu.

Como escreve Clara Ferreira Alves, no tal conto que me marcou: “Certas viagens são um desígnio”.