Reportagem em Itália! “O Fim é o Meu Início”…

TizianoRecebi o convite para traduzir La fine è il mio inizio do autor italiano Tiziano Terzani num período em que estava com outra tradução em mãos. Quando o António, o editor, decidiu esperar por mim, fui beijada pelo privilégio de fazer uma tradução que se transformou num percurso cheio de emoção, entusiasmo, curiosidade, aprendizagem, transformação, profundidade, aventura, comoção… confesso que foram várias as vezes em que as lágrimas me fizeram companhia enquanto trabalhava neste livro. «A única revolução que muda o homem é a revolução interior», diz Terzani. Este livro veio sem dúvida contribuir para a minha.

Quando o livro saiu nas livrarias, recebi os parabéns de muitos amigos italianos por esta obra tão conhecida em Itália e, na brincadeira, surgiu a ideia de ir até lá para conhecer os lugares vivenciados pelo autor. Terzani viajou pelo mundo inteiro, mas havia uma localidade na Toscânia que lhe era especial: Orsigna, onde passava férias quando era miúdo e onde, mais tarde, construiu uma casa. Passou lá os últimos tempos da sua vida, dedicados a contar ao filho Folco a sua história de vida,transcrita póstuma para o livro em questão.

Não pensei muito. Proposta lançada, proposta aceite. Marquei o bilhete e fui. Antes de ir propus ao António levar um livro autografado por ele para deixar na casa Terzani. Imaginava que já lá não estaria ninguém e que era apenas uma casa de férias de família, mas deixar um exemplar na caixa do correio não deixaria de ser uma iniciativa peculiar. E como adoro desafios originais lá fui eu, sem grandes expectativas, apenas entusiasmada por pisar caminhos com significado para mim.

Início: sexta-feira, 11 de setembro de 2015. Eu, a Tania, o Massimo e o Ubaldo estávamos numa excitação por esta aventura juntos. Pouco antes de Orsigna, encontrámos a estrada cortada. Naquele dia, e só naquele dia, a estrada estava a ser asfaltada. Uns diriam azar do destino, outros, como nós, convencemo-nos de que uma bela caminhada no meio da natureza seria certamente inspiradora. Deixámos o carro à beira da estrada e continuámos aventura a pé.

 De livro na mochila, fomos percorrendo uma lindíssima subida arborizada. Em certos aspectos fazia-me lembrar Sintra.

 Caminhávamos pelo meio da rua, sozinhos. Não havia trânsito, não havia ninguém. Às tantas já nem sabíamos se estávamos no caminho certo. Consultávamos as indicações que muito de vez em quando apareciam, recorríamos às tecnologias, mas as dúvidas persistiam, pois andávamos, andávamos, andávamos e nem sombra de pessoas e/ou de casas habitadas.

 

 Dá-nos as informações solicitadas, mas com a ressalva de que «NINGUÉM PODE LÁ ENTRAR!». Achei piada a este remate, pois trouxe-me à memória uma passagem no livro em que Terzani explicava que as visitas não eram bem-vindas, sobretudo no período da sua doença.

 Seguimos as indicações da senhora, mas a verdade é que nunca mais chegávamos à dita casa. Já tínhamos percorrido 2 km e nada. Um pouco mais adiante demos com uma mercearia e pensámos: «bom, será melhor comprar qualquer coisa para comer pelo caminho, vá-se lá saber onde é esta casa…». Perguntámos mais uma vez onde era a habitação Terzani e no fim da explicação o senhor diz: «Está lá o filho Folco, mas ele não vos abre a porta. NINGUÉM PODE LÁ ENTRAR!». Nenhum de nós se deixou intimidar muito, pois pensámos «mas nós temos uma prenda especial para entregar!». Saber que afinal estava lá o filho fez-me palpitar de emoção. Estava provavelmente prestes a conhecer o co-autor de um dos livros mais marcantes na minha vida.

Caminhámos, caminhámos, caminhámos. 3km. 4km. Parámos para comer no meio do nada, só árvores à volta. Lindo. Apenas se ouviam as nossas vozes de tanta conversa e tanta gargalhada… Enfim, tudo o que os italianos sabem fazer bem… Bem, mas sempre a subir!

Encontrámos a casa, construída numa encosta perto de outras duas habitações. Estava uma senhora na rua a quem perguntámos qual das casas era a da família Terzani, ao que nos respondeu: «É aquela, mas NINGUÉM PODE LÁ ENTRAR!».

Os meus amigos olharam para mim e já desgastados por tantas vezes ouvir a mesma coisa, disseram: «Eh pá,vai tu sozinha, bate à porta e apresenta-te. E olha, logo se vê…». Eu estava pronta para o pior.

 

Desci as escadinhas que levavam até ao jardim onde estava a entrada principal. Assim que pus os pés na relva deparei-me com o «famoso» vale, tão bem descrito no livro. Parei para observar, para sentir. O meu coração disparou de emoção. Senti-me imediatamente pequena perante tanta grandeza. Naquele instante,relembrei o espaço que a natureza ocupava na alma de Terzani e percebi claramente porquê. Silêncio completo.

Uns largos segundos depois, bati à porta. Era uma porta de vidro, através da qual se via toda a casa. As janelas estavam abertas. Ninguém respondia. Voltei a bater no vidro, não havia campainha. Apareceu uma jovem mulher a quem pedi imediatamente desculpa pelo incómodo, mas, de livro na mão, disse-lhe que era a tradutora da última obra de Terzani e que queria apenas entregá-la. Ela rasgou um sorriso instantâneo, apresentou-se e disse que ia chamar o Folco. Saiu e foi buscá-lo a um anexo ali ao lado. Aproveitei os momentos de espera para continuar na contemplação daquela natureza tão envolvente.

Sinto a sua presença. Olho e vejo-o vir na minha direção com um enorme sorriso nos lábios. Eu retribuo o sorriso e oiço «Que bela surpresa!», ao que apenas respondo «Estou tão comovida!».Pediu que chamasse os meus amigos, convidou-nos a descalçar e a sentar numa esteira naquele prado com copos de água natural da fonte.Conversámos um pouco sobre o meu processo existencial com aquele livro. O meu fim e o meu início. Ele falou do seu desafio com a obra, pois o pai, para ele, não era o grande jornalista ou escritor, mas sim o pai. E talvez eu o entendesse melhor do que ninguém pela minha história pessoal tão semelhante, pelo que me limitei a exprimir o que sentia e o que tinha vivido através daquela experiência de leitura e tradução. Uma história que sinto um pouco minha, vidas que sinto fazerem parte de mim, apesar de as desconhecer.

Ele mostrava-se muito curioso e confessou lembrar-se do António, pois quando foi contactado para a aquisição dos direitos da obra para Portugal deu-lhe a indicação de um agente que estava em Milão, mas que entretanto se suicidara. «Não me espanta», dizia ele «por isso é que nós vivemos aqui», admirando a natureza à volta. Um rapaz simples, descalço, t-shirt e calças de ganga, tenta manter-se longe da confusão citadina e da fama. Não se envolve nas iniciativas municipais dedicadas ao pai, «seria um tormento», explicou.

Mostrou-nos onde o pai escrevia, lugar agora ocupado por ele, mostrou-nos onde o pai descansava e meditava, e teve ainda a generosidade de nos mostrar onde o pai faleceu, episódio esse que recordo como se lá estivesse estado. Observava cada pormenor daquele anexo e sentia-me comovida de gratidão por ter o privilégio de vivenciar tudo aquilo. Uma casa modesta, sem ostentações de nenhum tipo, forrada de livros e imagens reflexo de uma história de vida simples, honesta, humilde, autêntica e audaz. Um ambiente quede imediato me foi familiar, muito igual ao que imaginava e com o qual me tinha identificado tanto. Folco voltou a pegar no livro O fim é o meu início, também ele comovido com o louco gesto de uma mera tradutora de ir até Itália entregar-lho em mão. Mostrou-se interessado em vir a Portugal, país que ainda não conhece. Despedimo-nos com a alegria de sentir que aquele encontro seria um início.

 

 

 

Sob sua sugestão, prosseguimos caminho. Desta vez percorremos o chamado Sentierodi Terzani (Caminho de Terzani), onde Tiziano se dedicava a caminhadas e meditações. Em vida era um caminho como tantos outros, após a sua morte tornou-se um caminho de culto para turistas.

O sucesso de Tiziano não foi imediato, antes pelo contrário, foi ganhando cada vez mais espaço com o passar do tempo. Enquanto correspondente do jornal Der Spiegel na Ásia, não eram muitos a conhecê-lo. Depois, à medida que foi publicando livros, foi dando a conhecer as suas experiências e pontos de vista que não pouparam polémicas pela sua veracidade e desprendimento em agradar quem quer que fosse.

Não sei se em vida ele alguma vez imaginaria vir a ter a fama de que agora goza, pelo menos em Itália. Chegámos à chamada Árvore com Olhos, onde, além de meditar, levava frequentemente o filho Folco para lhe mostrar que as árvores também tinham olhos, também tinham vida. Para o demonstrar, colara lá uns olhos de plástico, brincadeira que foi depois aproveitada por outros para lá deixarem recordações. Independentemente da beleza da paisagem, como pessoa fascinada pela natureza humana que sou, fiquei estupefacta ao ver um grupo de trabalhadores de «rua concentradíssimos em fotografar a dita árvore, na correria da pausa de almoço.

Terzani será conhecido, mas pela escrita, pela originalidade intelectual, pela audácia, não certamente por feitos populares que alcançam pessoas de nível sociocultural mais baixo. Achava eu. Afinal, eram essas as pessoas que ali estavam, «homens das obras», como dizemos, curiosos e desejosos de levar fotografias para casa.

Homens divertidos, com quem metemos logo conversa e a quem descaradamente pedimos, depois de tantas horas de viagem, para nos levarem até ao nosso carro, onde precisamente eles nos tinham impedido de passar por estarem a asfaltar a estrada. E no fim encontrámos o nosso início, um ciclo que se fecha com o mesmo encontro, mas cujo caminho foi enriquecido de experiências que nos mudaram para sempre.

 Grata António, por teres apostado nesta obra! Fortunados dos que serão tocados como eu fui.

Grata Tania, Massimo e Ubaldo pela inesquecível aventura!

Grata Folco por tudo o que mostraste ao mundo através deste livro. Esperamos por ti em Portugal!

Um agradecimento especial:

«Obrigado nós, Rossana, por tornares o nosso livro, “O fim é o meu início” ainda mais especial. Identificamo-nos muito com esta viagem. Obrigado por partilhares. Vivemos contigo cada passo e cada aventura. Tenho a certeza que os leitores vão adorar esta reportagem que é uma excelente prenda para os leitores.»

 Antonio Vilaça Pacheco, Editor da Self.