O regresso ao tapete

Sempre que volto ao tapete de ioga, há um misto de familiaridade e entusiasmo por algo novo. A verdade é que nunca sabemos que sensações a prática nos vai trazer. É um reencontro com nós próprios, uma reunião onde não só voltamos a encontrar o nosso ser mais profundo, mas também descobrimos tudo o que mudou. Um músculo mais tenso, uma dor que não sabíamos que ali estava, ou até uma flexibilidade e força que finalmente se começam a instalar mais profundamente do que imaginávamos. Mas mais do que as sensações físicas, há todo um conjunto de emoções que só pode ser vivido por quem pratica.

Comecei a praticar ioga aos dezanove anos. Tenho agora trinta e quatro. Entre vários professores e escolas e, muitas vezes, na prática solitária em casa, fui descobrindo que o nosso corpo, o nosso espírito, todo o nosso ser, não são iguais todos os dias. Bastam 24 horas de intervalo entre a prática para notar a transformação. Se hoje estou mais nervosa e menos flexível, amanhã talvez esteja relaxada e consiga fazer as posturas com toda a facilidade. Se um dia estou mais frustrada, no outro sinto aquela alegria interior que nenhum acontecimento externo me poderia trazer.

Então e quando se passam vários meses ou anos sem voltar ao tapete? Aí, as coisas tornam-se mais complicadas. Em 2013, fui uma de muitos jovens que se viram forçados a emigrar. Mas ao contrário de muitos, que se sentiram mais realizados lá fora, eu senti-me perdida, arrancada de tudo o que me era familiar. E ao fim de algum tempo, senti que eu já não era eu. Foi nesse dia que decidi voltar ao tapete, ao fim de mais de um ano de paragem. E aí notei todas as diferenças: toda a tensão que se tinha
acumulado, todas as dores que se tinham tornado mais intensas, a força que já não era a mesma, o corpo que já não parecia o meu. E o espírito? Era como se nem lá estivesse. Toda a alegria que sempre senti na minha prática tinha desaparecido. Conseguia descontrair ligeiramente, mas era mais pelo cansaço do que propriamente por voltar a encontrar aquela paz de espírito há muito perdida. Pensei até que já nem gostava de ioga como dantes, ou que já não era capaz de me sentir em harmonia. Porque eu já não era eu.

Mesmo assim, não deixava de praticar sempre que me sentia mais tensa. A minha sanidade mental dependia disso. Até ao dia em que finalmente voltei para casa. A minha casa: o Porto. Mas aqui não havia tempo para voltar ao tapete, havia amigos e família para reencontrar, uma cidade para redescobrir (e como ela se transformou nos últimos anos!), uma vida para recomeçar. Passaram-se meses, mas aos poucos, acabei por voltar à minha prática. Desta vez, não por me sentir vazia ou em busca de algo, mas por estar feliz e pronta para me reencontrar. E emocionei-me quando percebi que afinal eu não tinha desaparecido, estava apenas diferente. Diferente, amadurecida, mas feliz como outrora e com um renovado entusiasmo pela prática e tudo o que ela implica.

Atrevo-me a dizer que o tapete de ioga é um barómetro da felicidade. Ou no mínimo, do nosso estado de espírito e do estado físico do nosso corpo. Já desenrolou o seu hoje?