Pais que não ouvem, filhos que não falam

Costuma dizer‐se que a adolescência é uma etapa de transição. Nesse período confuso da vida o que está em jogo é a construção da nossa própria identidade, o que, muitas vezes, leva os jovens a entrar em confronto com os pais e, portanto, com o resto da sociedade.

No entanto, assistimos cada vez mais a um fenómeno em que a adolescência deixou de ser uma fase de transição, e os seus efeitos se estendem ao longo dos anos. Não é verdade que os adultos também revelam complexos e insegurança? Não demonstram, por vezes, comportamentos infantis? Também fogem às suas responsabilidades, recusando‐se a amadurecer? O que se passa quando a adolescência deixa de ser uma etapa de transição e se transforma num modo de vida?

Uma das causas desta realidade cada vez mais distendida será, talvez, o facto de não termos recebido nenhum tipo de educação emocional. Não aprendemos a desenvolver competências emocionais básicas como a inteligência interpessoal ou a capacidade de regularmos os nossos sentimentos.

Trata‐se, sem dúvida, de uma ferramenta que trará benefícios enormes aos nossos filhos adolescentes.

Depende de nós proporcionarmos aos nossos filhos as estratégias e os recursos necessários para enfrentarem a vida e responder às suas emoções de uma forma saudável, em vez de se sentirem esmagados pelos seus sentimentos, reagindo na sequência dos mesmos.

O nosso sistema educativo desfasado e obsoleto tem muito a ver com este processo, pois não nos faculta as ferramentas necessárias para sobrevivermos emocionalmente e prosperarmos em termos profissionais. Ensinam‐nos a ler, a escrever, a fazer cálculos matemáticos e a memorizar, mas não a pensar por nós próprios. Esta realidade contribui para a chamada «crise da adolescência», pela qual a grande maioria de nós passou. É um período da vida marcado pelo desnorte, o medo e o sofrimento. Não aceitamos o estilo de vida que a sociedade nos propõe, mas também não temos uma alternativa viável que nos permita seguir o nosso caminho.

Ao chegarmos a este momento da vida, devemos ver a etapa por que estão a passar os nossos filhos como uma oportunidade de aprendizagem. O desafio consiste em questionarmos as nossas convicções; em transcendermos as nossas limitações e alterarmos as formas como reagimos. Podemos começar por nos perguntarmos que resquício da nossa própria adolescência provoca o choque com o que observamos nos nossos filhos, enfrentando depois o desafio de respondermos com honestidade e humildade.

A única forma de ensinar é através do exemplo. Se queremos que os nossos filhos assumam a responsabilidade dos seus atos, se tornem seres humanos autónomos e aprendam com os erros, temos de começar por aplicar essas exigências a nós próprios. Só deste modo poderemos começar a cultivar a paternidade consciente, que consiste em ajudarmos os nossos filhos a desenvolverem as pessoas que realmente são, em vez de os condicionarmos para que se tornem quem nós gostaríamos que fossem.

Por detrás desse paternalismo cheio de boas intenções, espreitam, escondidos, o medo e a ignorância.

Perante os nossos filhos, podemos optar por nos impormos ou por fazermos algo muito mais poderoso e «revolucionário»: aproveitar a referida etapa da nossa vida para nos questionarmos e amadurecermos. Esta pode ser a viagem mais extraordinária que alguma vez nos propuseram.
Em Esta casa não é um hotel, Irene Orce, Self

Irene Orce: Leciona na Faculdade de Economia da Universidade de Barcelona (UB) no mestrado de Desenvolvimento Pessoal e Liderança. Desde jovem que iniciou a sua jornada de autoconhecimento, adquirindo conhecimentos e formando-se com ferramentas como o Eneagrama e a Programação Neurolinguística. Em 2009 concluiu o seu mestrado em Liderança e Coaching Pessoal na UB, no seguimento do qual criou a “Metodologia Metamorfosis”. Este método destina-se a acompanhar profissionalmente as pessoas que querem desenvolver o seu potencial para construir uma vida mais coerente com os seus verdadeiros valores e necessidades.