O fim é o meu início: toca-nos o coração e eleva-nos a alma

O fim é o meu início:

“Folco, Folco, corre, vem cá! Está ali um cuco na castanheira. Não o vejo, mas está ali a cantar a sua canção:

Cuco, cuco, o inverno já se foi
Maio voltou, com o canto do cuco

Lindíssimo, ouve!

Que alegria, querido filho. Tenho sessenta e seis anos e esta grande viagem da minha vida chegou ao fim. Cheguei ao fim da linha. Mas estou aqui sem tristeza nenhuma, pelo contrário, estou até um pouco divertido. No outro dia a mãe perguntou-me: «Se alguém telefonasse e nos dissesse que tinha descoberto um comprimido que te daria mais dez anos de vida, tu tomava-lo?» E eu, instintivamente, respondi: «Não!» Porque não o queria, não queria viver mais dez anos. Para voltar a fazer tudo o que já fiz? Estive nos Himalaias, preparei-me para navegar pelo grande oceano da paz e não vejo por que razão deveria agora pôr-me num barquito a pescar ou a fazer vela. Não me interessa.
Olha para a natureza deste prado, olha bem e ouve. Ali, o cuco; nas árvores muitos passarinhos — quem serão? — com os seus gritos e os seus pios, os grilos na relva, o vento a passar entre as folhas. Um grande concerto que tem uma vida própria, completamente indiferente, independente do que me acontece, da morte que me espera. As formiguinhas continuam a andar, os pássaros cantam ao seu deus, o vento sopra.
Que lição! Por isso é que eu estou sereno. Há meses que existe dentro de mim um centro de alegria que irradia em todas as direções. Parece-me que nunca me senti tão leve nem tão feliz. E se me perguntares como estou, eu respondo que estou ótimo, a minha cabeça está livre, sinto-me maravilhosamente bem. Só que este corpo mete água, mete literalmente água por todo o lado, está a apodrecer. E a única coisa a fazer é desligar-se e abandoná-lo ao seu destino de matéria que se torna pútrida, que se reduz a pó. Sem angústia, como a coisa mais natural do mundo.
No entanto, exatamente porque tenho pouco tempo, se calhar gostava ainda de fazer uma última coisa: falar contigo, pois foste parte e espetador da minha vida durante trinta e cinco anos, trinta e quatro — quantos anos tens? —, ao longo desta longa viagem que fiz e que tu viste de baixo, da perspetiva de filho. Estavas sempre presente, mas sei muito bem que não conheces toda a minha vida. De igual modo, no fundo, eu não conhecia a vida do meu pai e lamento não ter passado mais tempo a falar com ele.
FOLCO: Então, pai, aceitaste mesmo morrer?
TIZIANO: Olha, isso de «morrer» é algo que queria evitar. Gosto muito mais da expressão indiana que conheces, tal como eu: «deixar o corpo».

De facto, o meu sonho é desaparecer como se não existisse esse momento de separação. O último ato  da vida, aquele a que se chama morte, não me preocupa porque me preparei. Pensei nele.
No entanto, não digo que seria a mesma coisa com a tua idade. Mas na minha…! Tenho sessenta e seis anos, fiz tudo o que queria fazer, vivi intensissimamente, pelo que não tenho nenhuma mágoa. Não posso dizer: «Ah, ainda gostava de ter tempo para fazer isto!» Além disso, não me preocupo graças a duas ou três coisas, a meu ver fundamentais, que todos os grandes homens e sábios do passado compreenderam bem.
O que é que nos assusta tanto na morte?
O que nos mete medo, o que nos congela perante aquele momento, é a ideia de que naquele instante desaparecerá tudo aquilo a que nós estamos tão apegados. Antes de mais, o corpo. Fizemos do corpo uma obsessão. Pensa bem: uma pessoa cresce com este corpo, identifica-se com ele. Olha para ti, és jovem, és forte, cheio de músculos. Oh, eu também era assim! Todos os dias corria quilómetros para me manter em forma, fazia ginástica, tinha as pernas direitas, tinha bigodes e a cabeça cheia de cabelos pretos. Era um rapaz bonito. Uma pessoa que diga «Tiziano Terzani» pensa logo naquele corpo.
Até dá vontade de rir! Olha para mim agora. Pele e osso, magríssimo, as pernas inchadas, a barriga que parece uma bola. A geometria do corpo virou-se do avesso. Primeiro temos os ombros largos e a cintura fina; agora tenho uns ombrinhos fininhos e uma cintura enorme. Sendo assim, não posso estar apegado a este corpo. Mas que corpo? Um corpo que muda todos os dias, que perde cabelos, que fica coxo, cheio de achaques, que é cortado pelo cirurgião aos pedaços?
Nós não somos o corpo. Então o que é que somos?
Acreditamos ser tudo o que nos preocupa perder quando morremos. Identificamo-nos com a identidade — jornalista, advogado, diretor de um banco — e a ideia de que tudo isto desapareça, que deixemos de ser o grande jornalista, o bom diretor do banco, que a morte leve tudo isto, transtorna-nos. Nós possuímos a bicicleta, o automóvel, o belo quadro que comprámos com as poupanças de uma vida inteira, um campo, uma casinha na praia. É nossa! E agora morremos e perdemo-la. A razão por que temos tanto medo da morte é que com ela é preciso renunciar a tudo a que estávamos afeiçoados: propriedades, desejos, identidades. Eu já fiz isso. Nos últimos anos, dediquei-me a deitar ao mar tudo isto e agora já não há nada a que esteja apegado.
Isto porque, obviamente, nós não somos o nosso nome, nós não somos a nossa profissão, não somos a casinha de praia que temos. E se aprendermos a morrer enquanto vivemos, como bem nos ensinaram os sábios do passado — os sufis, os gregos, os nossos adorados rishis dos Himalaias —, então habituamo-nos a não nos reconhecermos nestas coisas, mas sim a reconhecermos o valor extremamente limitado, transitório, ridículo, impermanente. Se um dia comprámos uma casa na praia — vrumm, é levada pela maré! Se um filho, um como tu, que foste meu por tanto tempo e a quem dediquei pensamentos, às vezes também sofrimentos e angústias, sai de casa, cai-lhe um tijolo em cima e — vrumm, acabou! Então percebemos que não é possível sermos aquelas coisas que tão simplesmente desaparecem.
E se, ao vivermos, começamos a perceber que não somos aquelas coisas, então, aos poucos, cansamo-nos e abandonamo-las. Abandonamos também o que nos parece mais precioso, como o amor que eu tenho pela tua mãe. Amei a tua mãe ao longo dos quarenta e sete anos que estivemos juntos e quando digo que estou cansado, não quero dizer que já não a amo, mas que este amor já não é uma escravidão; que já não estou dependente deste amor; que estou também desapegado dele. Este amor é parte da minha vida, mas eu não sou aquele amor.”

em O fim é o meu início, de Tiziano Terzani, Self

 

Sobre o autor Tiziano Terzani:

TizianTizianoo Terzani nasce em Florença em 1938 e durante trinta anos vive com a mulher e os dois filhos na Ásia. Como correspondente do semanal alemão Der Spiegel vive em Singapura, Hong Kong, Pequim, Tóquio, Banguecoque e Nova Deli, de onde colabora também com La Repubblica, L’Espresso e Il Corriere della Sera. Ao longo da sua vida asiática publica muitos livros, traduzidos em várias línguas, sobre as grandes histórias de que é testemunha: a guerra no Vietname, a China do pós-Mao, ou a queda da União Soviética.
No seu último livro, O fim é o Meu Inicio, Terzani coloca-se uma série de perguntas sobre o sentido da existência. Morre em Orsigna em julho de 2004.