A liberdade de voar em relação

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Precisamos de colocar rótulos nas relações. Precisamos de lhes dar um nome, de definir o que são, de forma a legitimar as nossas expectativas. O que consideramos ter o direito de esperar de um parceiro é diferente do que consideramos ter o direito de esperar de um amigo, de um marido, do pai de um filho, do irmão, do vizinho… Catalogamos as pessoas que fazem parte do nosso mundo e, segundo a designação que lhe atribuímos, colocamo-las em compartimentos onde fica bem claro para nós o que podemos exigir delas.

Assim que a relação está definida, entramos num encarceramento e na ilusão do garantido. Deixamos de ter liberdade de escolha e de aceitação para passarmos a dar primazia ao compromisso que aparentemente nos une. O compromisso proporciona-nos a certeza incerta de que o outro não vai falhar, pois uma pessoa ‘séria’ é aquela que se predispõe a dar-nos o que é suposto, segundo o rótulo atribuído à relação. Se não o fizer, será acusada de traição. Resumindo: preferimos que o outro esteja sempre presente para satisfazer as nossas expectativas do que estar connosco na livre e consciente escolha de o fazer. Isto porque, se a escolha for mesmo livre, há o grave risco de um dia não nos escolher. E esse dia pode ser já hoje. Como sobreviver a tamanha incerteza?

É preferível viver com a falsa sensação de segurança de que o outro não nos vai abandonar, ou simplesmente nos vai sempre contemplar nas suas escolhas de vida, do que encarar a realidade de que o outro tem o direito, tal como nós, a qualquer momento, de fazer opções que vão numa direção oposta àquela de que gostaríamos.

Paradoxalmente, quando nos permitimos viver na liberdade, há muito mais abertura para um caminho em conjunto saudavelmente duradouro. Na sempre presente liberdade de escolha, respeitamos acima de tudo o compromisso individual connosco próprios, ou seja, de sermos fieis ao que sentimos, razão pela qual não há espaço para condicionamentos. Quando, pelo contrário, nos aprisionamos para que ninguém fuja, mais facilmente surge a vontade de o fazer. No dia em que se concretiza o inevitável inesperado, é com grande surpresa que perguntamos: ‘Como foste capaz?!’

Mas como havemos de pôr em prática esta liberdade quando o ser humano procura constantemente a estabilidade e a segurança? Na verdade, elas não são incompatíveis, mas o nosso medo do abandono é tal que a tendência é procurar a estabilidade de forma destorcida, como tudo o que é fruto do medo: preferimos agarrar do que deixar livre com receio que não volte. Quantas vezes não contrariamos aquilo que sentimos só para agradar, satisfazer e evitar discussões? Quantas vezes não nos traímos a nós próprios para cumprir com uma promessa feita, promessa essa que até poderá ter deixado de fazer sentido, mas que nos recusamos a admitir? Como aceitar e respeitar não só a vontade do outro, mas a nossa também?

Apenas na consciência e na aceitação de que o percurso de vida de cada um é mesmo só de cada um e que os outros existem para nos acompanharem nestas nem sempre fáceis aprendizagens, é que conseguiremos reconhecer, validar e até incentivar que deixemos a porta sempre aberta para voar e explorar mundos. Só assim seremos capazes de construir um terreno seguro, na certeza de que cada um volta simplesmente porque quer e não porque é ‘forçado’. Quando sentimos que a nossa estrutura interna está bem consolidada e que não há ninguém que a possa destruir, nem pela ausência, nem pela presença, então seremos capazes de voar e deixar voar.

Na liberdade as pessoas desejam-se; na autenticidade e aceitação crescem; na vontade genuína voam juntas.

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