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Leite: Faz bem ao corpo?

leite

Uma paciente veio ao meu consultório a queixar-se de dores nas costas após uma queda. A radiografia mostrou osteoporose avançada e uma fratura grave na região lombar. Quando lhe mostrei a radiografia, disse-me que, de forma nenhuma, poderia ter ossos frágeis porque bebia dois copos de leite por dia. Tal como esta paciente, milhões de pessoas já ouviram dizer que, se queremos ter ossos fortes, temos de beber leite.

Afinal, o leite fornece cálcio, fortalece os dentes, mantém o coração saudável e impede os ossos de se tornarem frágeis e quebradiços (osteoporose). Contudo, isto não é verdade. Eis o que não dizem:

1. O leite de vaca pasteurizado não é uma boa fonte de cálcio. Um dos piores efeitos colaterais da pasteurização é que torna insolúvel a maior parte do cálcio contido no leite cru.

2. O benefício da vitamina D, vista como um dos ingredientes essenciais do leite, é insignificante. Na verdade, os níveis de vitamina D no nosso sangue são minimamente afetados por fontes dietéticas como o leite.

3. O leite é a alergia mais comum, afetando 8 em cada 10 adultos, provocando-lhes sintomas que eles nem sequer associam ao consumo de produtos lácteos. A intolerância e a alergia a leite de vaca são também um fator na síndrome de morte súbita infantil. Os bebés que consomem leite de vaca têm uma probabilidade 14 vezes superior de morrerem de complicações renais e 4 vezes superior de morrerem de pneumonia, relativamente aos bebés amamentados.

5. O leite envelhece o corpo e enfraquece os ossos.

Em defesa do leite

Sou contra o leite? Não. E acho que todos os mamíferos deviam bebê-lo — durante a infância, e apenas leite proveniente das suas próprias espécies.

Leite na infância. Somos a única espécie que bebe leite de outro animal durante a idade adulta. Alguma vez viu um chimpanzé adulto a ser amamentado por um elefante ou um gato adulto a sê-lo por um cavalo? Não!

Porque simplesmente não é natural. Todos os mamíferos amamentam as suas próprias espécies durante um curto período de tempo imediatamente após o nascimento. Depois do desmame, nunca mais bebem leite.

Na natureza, não há nenhuma espécie que beba leite durante a idade adulta. Então porque é que a média de consumo de leite dos adultos nos EUA é de 82 litros por ano?

Leite de espécies específicas. As necessidades nutricionais para mamíferos bebés são satisfeitas pelas características únicas do leite produzido pela sua própria espécie. Uma vaca fornece à sua cria hormonas, proteínas, enzimas e anticorpos que previnem doenças e ajudam o metabolismo e o crescimento específicos da sua espécie, da mesma forma que as mães humanas o fazem com os seus bebés.

Por exemplo, a caseína é a principal fonte de proteína encontrada no leite de vaca. É esta proteína que faz com que um bezerro de 45 quilos se torne num animal adulto de 900. O bebé humano pesa, em média, menos de 3,5 quilos e cresce até se tornar um adulto de 75 quilos.

Abasteceria a sua mota com combustível de foguetões? Então porque é que haveria de abastecer o corpo humano com o combustível adequado a um animal gigantesco?

A ciência provou que as crianças precisam de leite materno humano. Um bebé que não é amamentado tem um risco 10 vezes maior de ser hospitalizado durante o primeiro ano de vida, um risco 60 vezes maior de ter pneumonia e pode ter um QI significativamente menor, bem como dificuldades comportamentais ou de discurso. Terá, ainda, um risco maior de sofrer de asma, alergias, problemas digestivos, infeções, diabetes tipo 1, eczema, de vir a desenvolver linfomas e leucemia, bem como um maior risco de obesidade.

A ironia: muitos dos problemas de saúde prevenidos pela amamentação humana são causados pela ingestão de leite de vaca. Em meados do século XIX, o leite materno humano foi substituído por leite de vaca para situações de emergência (como quando a mãe morre ao dar à luz). Como resultado, muitas das crianças morreram. A grande concentração de proteína no leite de vaca foi demasiada para os seus rins, causando desidratação.

Bigodes de leite e os média

Está na altura de fazermos a grande pergunta: se o leite de vaca é tão pouco saudável para os seres humanos, porque é que os média o retratam como uma bebida altamente saudável? Já ouviu falar de oferta e de procura?

A indústria dos laticínios é constituída por grandes organizações. A Dairy Farmers of America (DFA ) tem 16 mil agricultores, que produzem cerca de 28 mil milhões de litros por ano, e faz 8 mil milhões de dólares. O National Dairy Council (NDC ) declara trabalhar em colaboração com aqueles que estão comprometidos em assumir a liderança da promoção da saúde e do bem‑estar infantil.70

A American Dairy Association and Dairy Council, Inc. (ADADC ) assume, igualmente, um objetivo interessante — quando vi o site corporativo, tornaram-se claras, de imediato, as suas motivações (adicionei itálicos e negritos para enfatizar).

Missão: «A ADADC, Inc. é criada e dirigida por agricultores com o propósito de aumentar as vendas e a procura de produtos lácteos. A ADADC, Inc. trabalha com a Dairy Management Inc.™ e é responsável por aumentar a procura de produtos lácteos produzidos nos EUA (…).»

Propósito: Em prol dos agricultores dos EUA, aumentar as vendas e a procura de ingredientes e produtos lácteos dos EUA.

Papel: Trabalhar de forma proativa e em parceria com líderes para aumentar e aplicar o conhecimento, criando oportunidades para expandir os mercados lácteos.

Visão: Iniciar perspetivas visionárias, procurar agressivamente novas oportunidades e implementar programas inovadores que criem um mercado de produtos lácteos mais forte.

Ou seja, a missão, os propósitos, o papel e a visão da ADADC focam-se numa só coisa: fazer dinheiro! O palavreado expressa motivações que se referem a aumentar as vendas, construir mercados (não ossos) mais fortes e criar oportunidades para os expandir. Porque é que a declaração da missão não refere ajudar a humanidade? Alimentar os pobres? Criar ossos e músculos fortes ou ajudar as pessoas a perder peso? Esse tipo de propaganda acerca dos laticínios é deixada para as empresas de publicidade. As vacas não são as únicas a ser exploradas.

Dr. David Friedman em Afinal o Que Raio Devemos Comer?

Uma foto de Brian Suman em Unsplash

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E se a meditação fosse a sua própria vida?

meditar

Quando as pessoas meditam, fazem-no frequentemente com a ideia de que estão a tentar chegar a algum lado. Meditação orientada para uma meta é um oximoro se é que já ouvi algum!

Sentamo-nos nas nossas almofadas na posição de lótus, cerrando os olhos com força, zelosamente contando respirações ou recitando o nosso próprio mantra, tentando com toda a força fazer alguma coisa acontecer. Ou dizemo-nos que nem pensar em meditar — que falharíamos miseravelmente ao fazê-lo, pois somos demasiado tipo A e de todo capazes de nos sentar sossegados ou aquietar a mente por mais de trinta segundos.

Mas, e se a vida fosse uma meditação viva? Que tal seria estar num estado de meditação durante cada momento de vigília?

Esqueça isso de ter um ponto focal, um mantra, uma maneira especial de se sentar. Esqueça visualizações, ou contagens, ou qualquer tipo de ponto de entrada especial. Pense na respiração — entra e sai, preste-lhe ou não atenção. Pense no sofá debaixo de si, ou no solo sob os seus pés, ou nos sons no quarto, simplesmente como são. Todas estas coisas estão sempre à nossa volta, mas em vez disso convencemo-nos de que precisamos de algum complicado processo para nos fazermos chegar lá. Use o que tem no espaço em que está. Está numa cadeira de dentista? Fantástico. Ou no percurso habitual de comboio? Trabalhe com isso.

Mas quando se trata das histórias que contamos a nós mesmos, estar neste estado meditativo requer um pouco mais de trabalho.

Imagine diante de si uma tela branca. Olhe realmente para a tela branca. Harmonize-se com ela. E se esta tela branca — expandindo-se até à infinidade — for a sua verdadeira natureza? Se você for uma tela branca, então tudo é possível. No instante em que começamos a enchê-la com deves e não deves, com maneiras de fazer as coisas, com mantras e práticas, ela fica tão pejada que não há espaço para mais nada.

Tantos de nós temos a nossa «prática» — mas para o que praticamos nós? Em última análise o verdadeiro propósito da prática é levar-nos a lado nenhum. Mas estamos tão orientados para metas que precisamos de um destino — enquanto isso esquecendo-nos de que o que está em causa é a viagem.

Pronto, bem sei que disse nada de visualizações, mas tenha lá paciência comigo: imagine que a sua vida pode ser retratada numa tela. A própria vida é a tela. Quando olha para esta tela, vê tudo o que ali foi colocado. Que, na sua maior parte, não teve origem em si.

Alguém — os seus pais, muito provavelmente — lhe deu um nome, um lugar de nascimento, uma história. À medida que foi avançando vida fora, rótulos exteriores têm sido sobrepostos sobre a tela: talvez mãe, esposa, filho, filha. As pessoas têm-nos dito quem somos, e isto enche a tela também.

Agora comece a arrancar esses rótulos. Aprofundou o seu autoconhecimento. Conhece-se agora, e isso significa que pode desmantelar o que conhece. Força — arranque esses rótulos. Raspe essas limitações. Remova todas essas diferentes palavras que estão a meter-se no caminho de ser uma tela branca. Mesmo a noção de espiritualidade — cada conceito, cada ideia, cada papel a desempenhar, cada responsabilidade: raspe-os todos. Ao fazê-lo, experimente a liberdade (ou talvez o terror) da tela branca.

Porque a tela branca é a vida. Antes de nascermos, nada somos. Depois de morrermos, nada somos. Apenas cometemos o erro de acreditar na nossa própria permanência. Mas não precisamos morrer para nos desfazermos de tudo o que foi afixado na tela branca.

Podemos experienciar uma profunda alteração se fizermos isto estando ainda vivos. Isto, meus queridos amigos, é o que significa morrer para si próprio.

Iluminação tem a ver com destruir toda e cada falsa noção que tem a seu próprio respeito. Raspe as camadas, os véus, tudo o que tem considerado ser mais importante que nada.

Agora fique em branco.

Panache Desai em À Descoberta da sua Assinatura de Alma

Foto de Stephanie Greene em Unsplash

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Desintoxicação Diária

detox

A maior parte de nós faz o seu melhor para ter cuidado com aquilo que ingere, mas a verdade é que o que eliminamos é igualmente importante. Para atingirmos a nossa máxima beleza, temos de fomentar constantemente a remoção de toxinas das células.

Existem dois tipos de toxinas: as toxinas exógenas, que vêm de poluentes e produtos químicos presentes no ambiente, e as toxinas endógenas, que são os subprodutos normais derivados do metabolismo e são criados dentro do nosso corpo. As nossas células são renovadas diariamente por dois processos opostos, o de construção (anabolismo) e o de desconstrução (catabolismo). Em consequência, o organismo tem de eliminar uma enorme quantidade de detritos celulares todos os dias. Se isto não for feito eficazmente, pode sobrecarregar o corpo e contribuir para a acumulação de  toxicidade.

A desintoxicação acontece naturalmente, mas podemos tomar medidas para aumentar o seu nível de eficácia. Apoiar os processos diários de desintoxicação do nosso corpo é crucial para manter uma pele límpida e resplandecente e uma aparência jovem.

ESTÁ DEMASIADO INTOXICADO?

Quais das seguintes hipóteses se aplicam a si?

• Mente confusa, lentidão de raciocínio

• Problemas frequentes de estômago ou inchaço

• Dores e incómodos crónicos

• Prisão de ventre e problemas digestivos

• Maus odores corporais

• Mau hálito

• Fadiga permanente

• Pele flácida e envelhecida

• Forte adição a doces

• Acordar com o nariz entupido

• Língua saburrosa

Se três ou mais destes problemas o afetam, é provável que a sua desintoxicação diária precise de algum apoio suplementar. Esteja atento aos conselhos prestados neste pilar e aplique-os para melhorar os mecanismos de purificação diários do seu corpo.

O Seu Belo Fígado, Construtor de Beleza

O fígado é um órgão fulcral para a beleza. Pesando cerca de 1,3 kg cheios de potência, o fígado é o principal órgão para a desintoxicação. Trabalha incansavelmente para limpar o sangue de toxinas e bactérias e para neutralizar os poluentes. Na verdade, filtra cerca de um litro de sangue por minuto, lidando com os produtos agroquímicos, as toxinas, os poluentes, os aditivos alimentares, os conservantes, os resíduos, os pesticidas e inúmeras outras impurezas e produtos químicos anónimos que introduzimos no nosso corpo inconscientemente (ou conscientemente, no caso daquelas margaritas que bebeu na happy hour da última sexta-feira!). Depois de processar todas essas toxinas, o fígado segrega-as para o sistema digestivo, para que sejam eliminadas do organismo, ou confere-lhes uma forma solúvel em água para que sejam filtradas pelos rins e excretadas como urina.

É extremamente importante dar apoio ao seu fígado se quiser ter uma pele, olhos e cabelo bonitos. Além do seu papel na desintoxicação, este órgão é o guardião de alguns produtos sagrados para a beleza. Armazena vitaminas A, B12 e D, assim como ferro, cobre e glicose, libertando estes nutrientes na corrente sanguínea conforme necessário.

Quando o fígado está sobrecarregado por toxicidade ou é agredido, torna-se disfuncional e não consegue desempenhar as suas tarefas essenciais — desde a desintoxicação à queima de gorduras e à purificação do sangue — com a eficácia devida. Isto pode levar ao envelhecimento prematuro e a menos energia e beleza. Quando o fígado consegue processar eficazmente as toxinas, a pele torna-se mais luminosa e mais bela, há mais nutrientes a chegar aos folículos capilares e sentimo-nos, em geral, mais belos e com mais energia. A boa notícia é que este é um órgão resiliente, com superpoderes regeneradores. A menos que tenha um fígado extremamente danificado ou uma doença como a cirrose, há muitas medidas que pode tomar para o ajudar a reconstruir-se e a regenerar-se, mesmo que tenha abusado dele no passado. Cuidar do fígado é uma tarefa essencial de beleza.

TÓNICO PARA O FÍGADO DE BELEZA NATURAL

Esta bebida tonificante, purificante e anti-inflamatória pode ser feita em qualquer momento para ajudar a nutrir o organismo e para estimular o fígado.

  • 1 pedaço de gengibre com 2,5 cm, finamente fatiado
  • Água filtrada (o suficiente para encher uma caneca de chá)
  • Sumo de meio limão
  • 2 colheres de sopa de mel cru (ou de açúcar ou néctar de coco)
  • ¼ de colher de sopa de açafrão em pó
  • Uma pitada de pimenta caiena
  • Uma pitada de pimenta preta

Coloque as fatias de gengibre numa caneca de chá. Aqueça a água numa chaleira ou numa caçarola e deite-a sobre as fatias de gengibre, deixando-as em infusão durante cerca de 3 minutos. Junte os restantes ingredientes e misture bem. Beba imediatamente.

Deepak Chopra e Kimberly Snyder em Beleza Natural

Foto de Dominik Martin em Unsplash

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Pandemia ou Pandemónio?

pandemónio

Sempre gostei do meu sossego, dos momentos em silêncio. Mas um silêncio forçado, passado pouco tempo, começa a incomodar. Há mais tempo para pensar em tudo, para dar voltas e voltas à cabeça com coisas que não interessam assim tanto.

Um início de quarentena cinzento em que as séries, os livros e os filmes fizeram passar o tempo rápido e disfarçadamente e o sono não vinha. Um medo instalado com incertezas, com a obrigatoriedade de nos mantermos longe de quem gostamos, a proibição da liberdade, de poder ir tomar um café, estar à beira mar, de poder ir passear o meu cão sem estar sempre a evitar pessoas.

Muitas destas coisas começaram a mexer com a minha cabeça e, instalou-se o pandemónio. Então como vou eu lidar com isto ?

É verdade, foi um início cinzento… mas depressa passou quando comecei a definir as minhas rotinas, os meus objetivos, voltar a fazer coisas que nunca teria tempo não trabalhando a partir de casa.

De volta à pintura, espalhar as tintas por todo o lado e dar uso à imaginação, a diferença é que antes não tinha um gato com 6 meses, portanto o meu Simba amarelo tigrado, passou a ser de todas as cores possíveis. Acho, ou aliás, tenho a certeza que esta quarentena infinita foi mais fácil com a companhia deste pestinha, mesmo que não me deixe trabalhar e goste de se deitar em cima do computador, espalhar as folhas, entre muitas outras asneiras, fez-me (e faz) muita companhia.

Assim como o meu cão Tobias que ficou mais feliz com esta quarentena do que se possa imaginar, um cão mimado que adora os seus passeios no campo. E claro que se ele já passeava muito agora fazia passeios aventureiros a descobrir caminhos e paisagens incríveis nesta aldeia que fica, como diz a minha avó, “atrás do Sol posto”.

Ahh! Claro que também tentei fazer pão e bolos, mas não há barriguinha que aguente ! E aprender croché com a avó? Que desgraça… nem uma almofada, nem um pano saiu dali. Também foi engraçado redecorar a zona de trabalho, já que iria passar mais tempo ali, dar animo à coisa, mas colar papel de parede não é muito divertido sozinha (muito menos com um gato…). 

E quando os dias passam e não se vê um fim para isto, começa a saudade… a saudade de brincar com os sobrinhos e das conversas da mana, o café com os amigos aos fim-de-semana, a saudade do abraço do namorado, que por mais chamadas de video que façamos, a distância sobrepõe-se. E as saudades de dançar…

De entrar naquele salão, calçar os sapatos, ouvir a música e simplesmente dançar. Começámos a reinventar a fazer treinos online. Sem contacto, obviamente, com os pares e com muita falta de espaço, mas a melhor sensação de todo este tempo foi voltar a calçar os sapatos, dançar num corredor minúsculo e ouvir aqueles gritos amorosos do treinador “estiquem as pernas, estiquem os braços, não olhem para o chão…”. Voltámos aos pés feios, aos músculos doridos (obrigada Ricardo ahah), mas com o coração cheio e a mente descansada. E tenho de agradecer a paciência infinita dos meus pais que, com muito amor, lhes peço para mover toda a mobília, todos os dias de treinos, os expulso da sala e fecho a porta para poder dançar durante duas horas.

Não era preciso uma pandemia para me lembrar da importância que é estar com as pessoas importantes para mim. Não era preciso um corte obrigatório de liberdade para me lembrar do quanto gosto de passear de mão dada à beira-mar. Não era preciso uma restrição de proximidade social para saber o quanto gosto de estar no café com os meus amigos ao fim-de-semana a falar de tudo e de nada. Não era preciso restrição do toque para saber o quão importante a dança é para mim e para a minha sanidade mental. Não era preciso ficar obrigatoriamente em casa para me lembrar de mimar sempre o Simba e o Tobias.

Tudo isto não era preciso, mas foi necessário e por mais que tudo isto pareça agora um pandemónio, a verdade é que deu para valorizar ainda mais momentos simples, como ler um livro à varanda, com o sol na cara e o ar puro da aldeia. 

Agora a Self. A Editora Self é relativamente nova na minha vida e tem sido uma boa surpresa. Não só a nível laboral como a nível pessoal.

E muitos livros me passam rapidamente pelas mãos, mas há um que se destacou pela curiosidade que eu tinha de desmistificar algumas coisas em relação à alimentação. O Paradoxo da Longevidade. Um livro que nos ajuda a perceber as coisas maioritariamente simples que podemos fazer para viver uma vida mais saudável, não só viver mais, mas também melhor.

Também gosto muito de livros de ficção e, apesar de ainda não ter lido todos os livros desta trilogia, Magia de Papel, Magia de Vidro e Magia de Mestre, são livros que despertam a minha curiosidade por causa do meu gosto pessoal. Gosto pela aventura o mistério, mesmo que seja mais sombrio ou bizarro, são livros que recomendo para quem tenha um gosto mais de fantasia e ficção como eu.

Beatriz Vieira

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Quando o stress leva a melhor

stress

O stress é um inimigo que se esconde à vista de todos. Todos os dias, uma pessoa comum enfrenta conscientemente os mesmos agentes causadores de stress, de forma contínua: demasiado barulho e pressa; exigências em casa e no emprego que se sobrepõem; as frustrações de conduzir no meio do trânsito; e pouco tempo em cada dia para fazer tudo o que precisa de ser feito. O que todos os agentes externos causadores de stress têm em comum é a pressão, e todos sabemos qual a sensação de estar sob pressão. 

Se estes fossem o verdadeiro problema, resolver o problema do stress não seria mais difícil do que tirar uma pedra do sapato — ao sentir o desconforto, lidávamos com ele o mais depressa possível.

Mas como já sabemos, o stress costuma ser muito mais complicado do que isso. O facto de todos nós tolerarmos tanto stress é a prova de que não lidamos bem com ele. Hoje queremos que você vire a página e comece a reduzir seriamente o stress que há na sua vida. Pode ter jeito para lidar com o stress diário, mas ainda assim, as suas células vão sendo afetadas aos poucos, com efeito primeiro a nível psicológico e mental, depois no seu comportamento e, por fim, na forma de danos físicos.
Esperar até à terceira fase, em que aparecem sintomas como hipertensão e problemas digestivos, seria muito imprudente.

Quando o stress leva a melhor

Mas se as pessoas se queixam constantemente do stress, ouvem falar constantemente dos seus efeitos nefastos e, mesmo assim, pouco fazem em relação a isso, o que é que correu mal? As escolhas que incluímos na lista de hoje não são novidade nem são surpreendentes. A meditação e o ioga já são tão populares que a sua prática devia estar muito mais generalizada do que está. As pausas e os momentos de silêncio deviam fazer parte da rotina. Aprender a ficar calmo numa situação de stress devia ser um mecanismo de defesa que se aprende em criança.

Claramente, o primeiro passo e o mais importante a dar para reduzir o stress é mudar de atitude. Caso contrário, a sua capacidade de lidar com as pressões da vida diária continuarão bloqueadas onde estão; uma tentativa pouco empenhada, sem grandes resultados. De certa forma, é uma situação semelhante às dietas rápidas. Como já mencionámos e é sabido pela maior parte das pessoas, as dietas temporárias não impedem que o peso volte.

(…)

Porque é que o stress continua a vencer

Respostas ineficazes a agentes diários causadores de stress
 Achamos normal estar ligeiramente stressados.
 Sentimo-nos indefesos perante forças externas.
 Os sinais de perturbação (irritabilidade, fadiga, estagnação mental) são ignorados.
 Os nossos mecanismos de defesa são muito limitados
 Acreditamos que tolerar o stress não faz mal.
 Estamos em negação ou pura e simplesmente ignoramos o quanto estamos stressados.
 Ouvimos dizer que é possível prosperar com stress.

Estas crenças e ações são autodestrutivas, mas cada uma contém um grão de verdade. Se você vive numa cidade ruidosa ou trabalha num local de construção, não pode controlar o ruído à sua volta.
Tolerar o stress é prejudicial, mas se estiver preso no trânsito ou tiver um bebé recém-nascido em casa, não há muito que possa fazer. Ninguém prospera com stress, pelo menos ao nível celular, mas algumas pessoas ambiciosas e bem-sucedidas afirmam que devem o seu sucesso a uma ânsia por situações de alto stress, nas quais podem provar que são vencedoras.

Estes grãos de verdade servem para encobrir uma realidade que as pessoas não estão dispostas a encarar: o stress é a epidemia da vida moderna.

(…)

Num dia da semana foque-se no tema stress e e escolha uma mudança das listadas abaixo que queira fazer relativamente ao stress:

A FAZER

 Medite.
 Vá a uma aula de ioga.
 Pratique a respiração consciente.
 Planeie uma pausa e um momento de silêncio.
 Pratique estar focado.
 Reconheça as fases do stress.

A DESFAZER

 Pare de piorar uma situação stressante.
 Evite ignorar acontecimentos stressantes da sua vida.
 Afaste‑se do stress assim que puder.
 Resolva algo que lhe provoque stress repetidamente.
 Analise um problema que tem andado a enfrentar apenas por frustração.
 Torne os hábitos irregulares numa rotina regular.

Deepak Chopra
Em O Poder da Cura

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Porque não começa a meditar?

meditar

Sobre meditar, Buda falou sobre a consciência como sendo o caminho direto para a iluminação: «Este é o caminho direto para a purificação dos seres, para se ultrapassar a mágoa e o lamento, para o desaparecimento da dor e do pesar, para se obter êxito no Caminho.»

Podemos dar início à prática de meditar da consciência com a simples observação e o simples sentir de cada respiração. Ao inspirarmos, sabemos que estamos a inspirar; ao expirarmos, sabemos que estamos a expirar. É muito simples, mas não é fácil. Após algum tempo a fazer isto, começamos a saltar sobre um comboio de associações, perdendo-nos em planos, lembranças, julgamentos e fantasias. Às vezes parece que estamos numa sala de cinema, em que o filme está constantemente a mudar. É assim que funcionam as nossas mentes.

Nós não ficaríamos num cinema em que os filmes mudassem tão rapidamente, mas o que é que podemos fazer em relação à nossa sala de projeções interior?
Este hábito de devaneio da mente é muito forte, mesmo quando os nossos pensamentos não são agradáveis e talvez nem correspondam à verdade. Tal como Mark Twain se referiu a isto tão competentemente:

«Algumas das piores coisas da minha vida nunca aconteceram.» Temos de treinar as nossas mentes para que voltemos a prestar atenção à nossa respiração uma e outra vez e regressemos, simplesmente, ao início.

Algumas das piores coisas da minha vida nunca aconteceram.
Mark Twain

À medida que as nossas mentes se vão acalmando lentamente, começamos a sentir uma espécie de calma e paz interiores. É a partir deste sítio de grande tranquilidade que sentimos os nossos corpos de um modo mais direto e começamos a tornar-nos recetivos tanto às sensações agradáveis como às desagradáveis que poderão surgir.
Inicialmente poderemos resistir às desagradáveis, mas, de uma maneira geral, estas não duram muito. Elas permanecem durante algum tempo, nós sentimo-las, elas são desagradáveis – e depois desaparecem e chega outra coisa qualquer. E mesmo que elas surjam repetidas vezes durante um determinado período, nós começamos a ver a natureza impermanente e imaterial delas e a ter menos medo de as sentirmos.

Uma parte posterior do treino consiste em tornarmo-nos conscientes dos nossos pensamentos e emoções, das atividades mentais subtis, dos nossos corpos e das nossas vidas. Já alguma vez parou para pensar no que é um pensamento – não no conteúdo deste mas na própria natureza do pensamento? São poucas as pessoas que refletem sobre a pergunta «o que é um pensamento?» Em que é que consiste este fenómeno que ocorre tantas vezes por dia e ao qual prestamos tão pouca atenção?

Não estar consciente dos pensamentos que surgem nas nossas mentes, nem da natureza do próprio pensamento, possibilita que os pensamentos dominem as nossas vidas. Os pensamentos conduzem- nos frequentemente como se fôssemos escravos deles, dizendo-nos para fazer isto, dizer aquilo, ir ali, ir acolá. Por isso, porque não começa a meditar?

Joseph Goldstein
Em Um Coração Repleto de Paz

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A Pandemia dentro da minha cabeça

ana santos

O despertador toca. É cedo e arranjo-me o mais rapidamente possível para começar a trabalhar. Marido já saiu; o rapaz mais velho está acordado, mas ainda na cama a ler algum Asterix ou Lucky Luke. Aquele momento de relax antes de o dia começar em força, com trabalhos que vão até às 18h ou mais, dependendo das tarefas. Comemos juntos e ambos começamos o dia cada um na sua mesa até o rapaz mais novo acordar. Quer mimos e ronha, mas durante a semana não dá e isso ele já aprendeu. Daí a um bocado também ele estará a ver a professora e os colegas por Zoom um bocado. Tem 5 anos e para ele isto no fundo são férias. Está nas suas sete quintas, mas fica contrariado quando percebe que são horas de fazer trabalhos. No geral vê TV, joga jogos, brinca uns bocadinhos aos legos, faz fichas e desenhos que a professora pede. Confesso que engulo alguma irritação quando tenho de insistir ou quase subornar para eles os fazer. Não é fácil fazê-lo entender que agora o dia a dia é diferente. Quase igual mas bem diferente.

O mais velho varia entre momentos de êxtase quando fala com os amigos por skype ou quando acaba finalmente as tarefas desse dia, e os momentos em que está em desânimo puro. Trabalhos a mais, horas infindas ao computador, pressão, sem pausas praticamente a não ser a do almoço. Mas tenho um orgulho tremendo no meu rapazolas. Tem-se aguentado bem no geral e na última semana senti-lhe uma autonomia que nunca tinha tido. Tem 9 anos, está mais confiante e já usa a plataforma que a escola designou como ninguém. Download e upload são com ele agora.

Às vezes quero ir à rua e gritar. Às vezes vou… mas não grito. Respiro fundo várias vezes e fico uns minutos parada ao sol, se ele estiver lá. De preferência sozinha. Geralmente isto acontece quando vou por o lixo… Antes tinha pânico de ir ao supermercado e ficar contaminada. Ainda tenho. Mas agora preparo-me bem e vou a sítios onde vejo que tem menos gente. Esses são os meus momentos “sozinha”. Sem horas para trabalhar, sem horas para dar de almoçar ou lanchar, ou o que seja, sem horas para tirar dúvidas, sem horas para os outros.

Sinto-me bipolar. Tenho dias zen e positivos, e de repente tudo muda e toda eu sou sombras e negatividade. Por vezes isto muda numa questão de horas, é curioso. Tenho saudades de sair e de ir comer a um restaurante. De ir onde me apetece sem medos. Dos pequenos luxos que tinha e que, bolas… são tão bons (mas isso eu sempre o soube, simplesmente agora acuso o toque da ausência). Depois caio em mim e mais uma vez lembro-me de todos os que que por várias razões não podem dormir em casa por estes dias. Dos que estão a morrer porque tiveram azar de contrair um vírus que o corpo não consegue combater. Que morrem afogados em pulmões a falhar lentamente. Oiço tantas histórias e penso mais uma vez que sou uma sortuda. Não estamos doentes cá em casa e não estamos sozinhos. Estamos bem. Mas penso na minha restante família, mãe, pai, etc. Todos cada um em sua casa, sozinhos, a tentar arranjar maneiras de passar o tempo, de a solidão não os engolir. Faço os telefonemas ou vídeochamadas que posso, às vezes levo compras.

Já estão longe os primeiros dias de quarentena, onde nem respirava tal era a ansiedade. Tinha receio e incertezas do que aí vinha. Agora aprendi a lidar com esses sentimentos. A controlar-me. Passe o que passar, desde que tenhamos saúde cá nos aguentaremos (aquele cliché tão verdadeiro). 

Não tenho feito exercício (mas devia!), a não ser aquele que partilho com os miúdos, das aulas de ginástica que a escola vai dando.

Não tenho feito as 1001 receitas espetaculares que me enviam por WhatsApp a toda a hora, dos 5 queques preferidos pelos miúdos às 10 maneiras mais divertidas de fazer parecer a comida mais apetitosa, passando pelas 5 vitaminas mais importantes que devemos ingerir neste tempo de pandemia….

E já mencionei que nunca fiz as “20 melhores actividades para fazer com miúdos em tempos de quarentena”?

Também não tenho tido paciência para me sentar e refletir no tempo em família, ou em todas as teorias zen que circulam sobre os efeitos da pandemia no mundo. Isso irrita-me. Pronto. Deve ser o meu mau feitio… Então quando chegam mensagens zen e de gratidão reencaminhadas… (por WhatsApp… o que mais poderia ser??? – confesso que já começo a ter uma relação amor / ódio com o WhatsApp, essa coisa vil que nos mete disponíveis a toda a hora e que vamos lendo obrigatoriamente mesmo quando as mensagens não são para nós).

Não analiso o “tempo de família feliz e unida em casa” que nos querem vender, nem penso se estamos juntos mais tempo agora. A realidade é o que é. Não estamos de férias, nem com uma existência relaxada. Estamos obrigados a estar em casa, vamos ser obrigados a andar sempre com cuidados especiais daqui para a frente (máscaras, etc e tal), vamos andar na rua e em espaços fechados com medo. Temos de trabalhar e ao mesmo tempo zelar pela escola dos nossos filhos, pela sanidade mental deles e da nossa, temos de gerir finanças agora bem mais apertadas.

Confesso que às vezes quando acordo, mal posso esperar para que chegue a noite e o momento em que finalmente me sento no sofá, com os miúdos já a dormir. Finalmente aconchego-me na minha cara metade e aligeiramos um bocado a cabeça, a rir com alguma coisa parva ou a ver uma série ou filme. É nesses momentos em que esqueço um bocado esta realidade esquizofrénica que andamos a viver. 

Depois, antes de me deitar, faço o meu ritual de sempre: vou ao quarto dos miúdos, vejo se estão bem, tapo-os, dou aqueles beijinhos ou carinhos que embora eles não sintam, acredito que de algum modo o corpo lhes faz por transmitir o profundo amor que lhes tenho. Pergunto-me se hoje o mais novo irá acordar a meio da noite a pedir para ir para a nossa cama. Se vou dormir (ou melhor: não dormir ahahaha) aconchegada aquele corpinho quente e fofo que só sossega quando me dá a mão. Olho para aquelas carinhas inocentes e doces a dormirem, e acho que a vida no fundo só me tem dado coisas boas especialmente com esta família que construí. E não preciso de pandemias ou de dias infindos enclausurados em casa por obrigação, para me lembrar disso.

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Agora quanto à Self: eu e a editora temos uma relação profunda há muitos anos. Conheço de cor todos os seus livros, e claro… tenho alguns preferidos. Sou o tipo de leitora que adora boas histórias e há um livro que sempre adorei “Os Jantares das Terças”. Um romance com foco na amizade entre mulheres, na lealdade, e na vida em geral; mas que basicamente reflete o fascinante que é a interacção humana, com todos os encontros e desencontros entre as pessoas, encantos e desencantos. E debruça-se sobre o fascinante Caminho de Santiago, um percurso que sempre tive muita curiosidade em fazer. Quem sabe um dia!

Outro livro mais recente e que tenho adorado ler: o “Como Fazer Acontecer”, um livro escrito por um coach que é um brilhante contador de histórias, um livro que nos inspira e nos faz querer lutar pelos nossos sonhos. Em que cada história nos faz refletir sobre determinadas atitudes que temos na vida e como podemos melhorar. É muito motivador. 

Aconselho os dois! Prometo que não se vão desiludir 🙂

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Ansiedades

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Todas as nossas emoções têm um objetivo e uma funcionalidade, elas são adaptativas. Se pensarmos na raiva, ela pode ser o motor que nos leva a fazer algo, que nos impele ao movimento. A tristeza permite a expressão de algo difícil e a sua mobilização para fora de nós, e a ansiedade e o medo também tem funções muito importantes.

Ao longo do tempo fomos afastando a ideia de que o ser humano é um animal e como tal, cortámos com a perceção daquilo que não é racional e renegamos o que é entendido como impulsos, intuições ou sensações primitivas. Mas somos animais e ter esta informação bem presente ajuda a compreender o nosso corpo.

Vamos imaginar uma gazela. Esta gazela está na savana a comer a sua ervinha de uma forma tranquila mas presente, ou seja, está alerta ao que a rodeia. O seu batimento cardíaco é normal e é o sistema para-simpático que está a trabalhar. Repentinamente surge uma ameaça, há um leão por perto. A gazela dispara, o batimento cardíaco sobe e é o sistema simpático que toma a dianteira, promovendo a reação de fuga. Quando a ameaça desaparece, assim desaparece o medo e a ansiedade, o batimento cardíaco diminui e a gazela volta calmamente ao seu pasto. Este é o movimento natural entre ficar ansioso e relaxar. O medo e ansiedade têm então esta funcionalidade: manter o alerta para potenciais ameaças e reagir perante elas.

Então qual a ligação para o homem? O grande problema do homem permanentemente ansioso é que não consegue parar de correr a fugir de um leão que só existe na sua cabeça. Há um botão que está sempre ou quase sempre ligado (consciente ou inconscientemente) e que o faz estar ansioso: com um batimento cardíaco mais acelerado, dores de barriga e, em casos mais graves, uma inabilidade tremenda em funcionar.

Como lidar com tudo isto? É importante tomar consciência do sintoma mas também da origem, até porque as crises de ansiedade ou ataques de pânico surgem quando estamos numa situação ou perante um estímulo que não aciona estes mecanismos (é diferente das fobias). É importante conhecer o nosso corpo e saber os primeiros sinais para encontrar ferramentas para lidar com os sintomas. No entanto é também importante procurar a origem destes sintomas em terapia. Vamos mergulhar?

Foto de Guillaume de Germain em Unsplash

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Navegar na tormenta

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Imaginem tudo isto como uma enorme tormenta. O barco abana. Tudo mexe. A estrutura, se já estava débil, vai agora abanar ainda mais. As ondas são fortes, o vento uiva enraivecido, como se estivesse a ralhar connosco. Respiramos golfadas de ar enquanto ficamos ensopados na água que nos atinge. Como cuidar do convés que se está a desmontar? Ao mesmo tempo temos de tirar a água que está a entrar. Ajustar velas, pegar no leme, observar o tempo, perceber das marés. Tudo isto sem cair borda fora. É muita coisa. E nós estamos cansados. Por isso, quem tinha o barco mais ou menos apetrechado poderá navegar melhor esta tormenta. Não significa que esteja imune, afinal há mais marés que marinheiros… Mas quem já vinha com o barco cansado, desarrumado por dentro, vai encontrar na tormenta uma luta desequilibrada.

A coleção de várias tormentas, que vamos ultrapassando em vida, permite-nos ganhar calo. Ou então não e em alguns casos pode levar o barco maltratado para novas batalhas, ainda sem se ter reposto das anteriores. Somos todos diferentesm pois navegamos sempre águas diferentes, com barcos diferentes, em tempos diferentes. Poderão dizer: “um bom mar nunca fez bons marinheiros.” Tudo certo. Exceto que num barco, de médio a grande até ao muito grande, temos muita gente a “marinhar” em equipa.

Já viram aqueles vídeos de barcos que quase voam em cima das ondas, com uma série de marinheiros, todos numa coreografia detalhada, com o seu próprio movimento e importância? Um deles muda a vela, outro puxa uma corda e os restantes fazem uma série de coisas impercetíveis aos olhos de quem não entende aquela dança. Mas que é bonita, é.

A imagem que tenho premente, talvez trazida pela frase repetida de estarmos no mesmo barco (é poético, mas não estamos), é que podemos e devemos pedir ajuda. Não temos de estar numa velha canoa. Podemos nos colocar numa nau e navegar juntos. Não faz mal pedir ajuda. Desde a família, os amigos, à ajuda de profissionais, fazendo psicoterapia por exemplo. Não temos de estar sozinhos. Muito se tem falado em isolamento, mas que seja físico e não social. Que não seja um isolamento de afetos e nem de ajuda.

Foto de Haut Risque em Unsplash

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Dores de Crescimento

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A comunidade médica ainda tem dúvidas sobre as dores de crescimento. Alguns falam da sua existência e dominância nos membros inferiores, mas outros referem que essa sintomatologia pode não ter a ver com o crescimento. Mas o que vos trago hoje aqui não são as dores físicas de crescimento, pelo menos não essas que vivemos até à adolescência. Por mais incrível que pareça, estas dores não estão só associadas ao crescimento físico e não cessam no fim da adolescência. Porque não falar em dores de crescimento psicológico ou emocional? Apesar de já estarmos biologicamente desenvolvidos em adultos (fun fact: o cérebro só está completamente desenvolvido por volta dos 25 anos), passamos muitas vezes por dores de crescimento.

E que dores são estas?

O crescimento tem dor associada. Não é fácil assistir a ruturas, viver cisões e decidir por novas identidades ou caminhos. Há um enorme desafio em lidar e em expressar todas as emoções que sentimos (e às vezes vêm aos pares!). Aprender a lidar com a vida adulta é um processo de etapas, sendo que por vezes bailamos entre elas, e noutras fazemos umas voltas em trapézio e sem rede.

E não é só quando acontecem as “coisas más”. Como aprendemos a viver o que é bom? Sabemos saboreá-lo, ou será que desvanece como a areia nas nossas mãos abertas? É aquele fino e complexo equilíbrio entre o aprender a ser e viver, em contacto com tudo o que nos rodeia e nos afeta. E mais, aprender a ser adulto é para a vida. Desengane-se quem acha que chegar à vida adulta é sê-lo. É preciso vivê-lo. É preciso aprender a ir crescendo, pois crescemos até ao fim, vivendo como uma peça inacabada. É nesse inacabado que reside a vida. E não é numa perspetiva de procura da perfeição ou de viver na imperfeição. É continuar no caminho da nossa construção pessoal. E isto envolve muita coisa boa, mas também a aprendizagem de lidar com o menos bom. Não há um sem o outro, não há luz sem sombra.

Quem somos nós no meio da dificuldade? E com esse conhecimento, quem queremos ser daqui para a frente? O mundo está a pedir isso agora. São períodos estranhos e conturbados. Uns lidam melhor que outros. Uns lidam bem num dia, mal no outro. Alguns preferem a solidão em vez da casa cheia, outros preferiam ir lá fora livremente. Somos todos diferentes e importa encarar tudo isto sem julgamento. Os ânimos às vezes agitam-se e nem sempre se tornam bons conselheiros. Então, faz a tua parte. Cuida de ti, na medida do possível e na medida daquilo que é viável e realista. Cuida de quem consegues e queres alcançar (desde que esse “quem” queira ser ajudado). Não precisas de encontrar curas, salvar alguém ou entrar num estado de iluminação. Baixa as expetativas. Faz o que podes. E isso pode ser diferente de dia para dia. Hoje pode não ser possível muita coisa, então respira. Amanhã tentamos novamente.

Foto de  Simon Hesthaven  em Unsplash