O poder da aceitação

A vida é um movimento contínuo, só para quando morremos. Por ser um movimento, é também incerta, inconstante e impermanente. Ao contrário do que é estático, onde nada acontece, o movimento surge na sequência de um estímulo, o qual vai despoletar alterações segundo uma série de variáveis que estamos longe de controlar e até de reconhecer racionalmente. Através desde mecanismo presente em tudo o que tem vida, vamos evoluindo e crescendo, e a nossa mente não escapa a este dinamismo. Uma tensão psíquica traduz-se num conflito e assim que ultrapassamos um surge outro, pois a vida avança segundo uma constante sucessão de conflitos, através dos quais crescemos e passamos para conflitos cada vez mais desafiantes, correspondentes às nossas capacidades. Ou não. Quando resistimos à mudança, estagnamos e não passamos do mesmo tipo de desafio. Para crescermos psicologicamente e para o processo de transformação ter lugar, há que passar primeiro por duas etapas: autoconsciência e aceitação.

Quando a nossa vida não corre bem, sentimos uma necessidade premente de mudança. Queremos perceber o motivo da disrupção e alterar o mecanismo para ganharmos nova fluidez. O primeiro passo nessa direção é ganhar autoconsciência. Não podemos consertar algo cujo funcionamento desconhecemos. Se o nosso carro se estraga, levamo-lo ao mecânico; se é um sapato, levamo-lo ao sapateiro; se partimos a perna, vamos ao hospital. Ou seja, nas situações práticas do nosso dia-a-dia procuramos remediar o problema junto de quem sabemos que nos pode ajudar. Pelo contrário, nas tensões da nossa psique, caímos no absurdo de as querer resolver sem primeiro as conhecer. E como resistimos a engrenar neste processo, simplesmente culpamos o outro das nossas insatisfações. Porém, cada vez que acusamos alguém da nossa infelicidade estamos a fugir da nossa responsabilidade de crescer.

Após conseguirmos desviar o foco da atenção do conflito exterior para o nosso interior, reconhecendo os nossos medos e inseguranças, os nossos desejos e necessidades, as nossas fragilidades e potencialidades, o segundo passo para a mudança é a aceitação. Aceitar não é subjugar-se ou resignar-se a uma situação que não nos agrada, ou admitir uma dificuldade e dizer «eu sou assim, não há nada a fazer!». Pelo contrário, aceitar requer um papel ativo da nossa parte, pois passa por explorar o que se passa dentro de nós, identificar, validar e honrar a nossa realidade interior.

O oposto de aceitar, ou seja, de nos entregarmos à vivência dos sentimentos e das emoções para que se ajustem e se equilibrem num espaço que depois se abre à mudança, rejeitar é quando recusamos olhar para nós próprios, fechando assim as portas a um diálogo interior; é quando culpamos os outros pelo nosso sofrimento; é quando insistimos na nossa razão e tentamos convencer o outro disso; é quando bloqueamos o que sentimos para elaborar histórias baseadas no que as nossas crenças dizem que é certo ou errado; é quando não sabemos lidar com as emoções e evitamos as pessoas que as provocam em vez de mergulharmos nas relações para aprender e crescer através delas. Rejeitar é virar as costas, é reagir segundo um padrão de comportamento antigo, que nos pode ter ajudado no passado, mas que agora já não é funcional; é defender-nos do que sentimos ser uma agressão, pois percecionamos o mundo exterior como uma ameaça; é não respeitar o que sentimos, tentando desvalorizar, minimizar ou negar partes nossas que gritam por atenção. Estas são as escolhas que adotamos na tentativa de atenuar a dor, mas que acabam por ser máscaras que velam a nossa autenticidade.

Aceitar é, portanto, prestar atenção ao que está a ocorrer dentro de nós para depois responder a esse conteúdo com consciência. Aceitar significa reconhecer as nossas partes fragmentadas e magoadas e não nos revoltarmos com isso; significa olhar para nós, reconhecendo e dando valor a essas partes; significa vê-las e cuidar delas, nutri-las. É esta atitude ativa que está na base da transformação, pois ao ter consciência do que sentimos, podemos comunicar com um outro num registo de autenticidade e não de luta por quem detém a razão. Aceitar não é ficar passivo e deixar que as coisas aconteçam. Implica ter a coragem de se comprometer com a vida, de se relacionar com a realidade tal como ela é, aqui e agora. É um estado que nos permite aceder ao nosso funcionamento interior, sem juízos de valor, sem classificações. A aceitação dá-nos a clarividência para podermos escolher. Não é contar uma história, não é pesar os prós e os contras, não é encontrar justificações nem desculpas, é simplesmente dar ouvidos e voz ao nosso coração. Quando conseguimos ganhar uma verdadeira consciência das nossas feridas internas – que são abertas na relação com os outros, mas que não deixam de ser as nossas –, e quando conseguimos aceitar essa realidade interior – sem tentar controlar, reprimir, ou rejeitar –, ganhamos a capacidade de comunicar na relação connosco e com os outros com autenticidade, a partir do nosso sentir, e de assim encontrar um terreno onde nos cuidamos e permitimos que o nosso ser se desenvolva e cresça com fluidez segundo a sua própria natureza.

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