O que aprendi com o super-homem

Saltei da cama, voei e aterrei de forma errada sobre o meu pé, partindo‑o. Tinha 6 anos, e todos os indícios apontavam para o facto de eu ser do planeta Krypton, cujo Sol explodiu quando eu era bebé, deixando‑me órfão num planeta cheio de pessoas que jamais me entenderiam plenamente. Tinha uma capa (o meu cobertor do Super‑Homem). A gravidade fraca da Terra não me conteria. Nada podia conter‑me. A minha mãe afirma que conseguiu ouvir o estalar do osso do outro lado da nossa casa suburbana. Crack! Aterrei. Talvez fosse verdade, ela podia ter ouvido.

Tive de usar gesso. No primeiro dia na primeira classe, numa escola nova, eu era «esse miúdo». O que mancava. O que tinha gesso . O leitor sabe, aquele com quem provavelmente teria andado porque era óbvio que eu estava destinado a ser o miúdo mais fixe da primeira classe. No final do dia, sentia comichão dentro do gesso.
Era horrível. E estava a chover. A professora Klecor só nos deixava sair para irmos apanhar o autocarro, no final do dia, se conseguíssemos soletrar os nossos nomes. Tenho um péssimo apelido para tal tarefa. Altucher. Tinha a certeza de que ia perder o autocarro.
Fui o último que restou. Comecei a chorar. Iria tirar o gesso depois da escola, mas não se não conseguisse soletrar o meu nome e perdesse o autocarro.

Quase 30 anos mais tarde, continuo a ser o Super‑Homem.
Ou melhor, sou o desajeitado Clark Kent. Uso óculos. Tenho cabelo preto. Costumo ser tímido em público. As pessoas costumam rir‑se de mim. E, tal como muitas pessoas, tenho uma identidade secreta. Uma que vou revelando aos poucos à Lois Lane que vive mais perto de mim. Mas, mesmo assim, se tivesse de revelar tudo, acabaria preso ou num hospital ou numa instituição, ou teria mais pessoas a detestar‑me do que o normal, ou a Claudia deixava‑me, ou outras pessoas seriam muito prejudicadas por quem se aproveitasse da verdade. É a minha identidade secreta.

Desde os 4 anos até aos 44 que leio o Super-Home m. Se não estivesse a escrever este livro, hoje podia sentar‑me e escrever 50 argumentos para submeter à DC Comics. Porque é que a história do Super‑Homem é tão chamativa? Obviamente, pela ideia de que todos somos o Super‑Homem. Todos somos tímidos e estranhos e ai, se as pessoas conhecessem o nosso eu verdadeiro. O que está por debaixo do fato, dos óculos, o que abre a camisa branca, lisa, revelando as cores vivas, os superpoderes, a inteligência inacreditável, a bondade, a moral e a força física. Não tem de acabar. Quando passamos da infância para a idade adulta, somos ensinados a deixar as histórias da nossa juventude para trás. Não siga esse conselho. Se guardarmos as joias escondidas no interior, as histórias da nossa juventude podem ajudar‑nos a percorrer o mundo como um super‑herói. As pessoas que se Escolhem a Si Mesmas são os novos super‑heróis. Os que nunca perderam a herança criptoniana.

Comece por aperceber‑se de que ainda tem uma identidade secreta. Reconheça‑a. Acorde todos os dias e diga a si mesmo: «Sou um super‑herói. O que é que posso fazer para salvar o mundo?» E aparecerão respostas, verá oportunidades, descobrirá novos passos. Descobrirá como voar até onde é preciso. Como levantar o carro, como usar a sua visão raio X para ver as soluções que ninguém pensou serem possíveis.

Se pensar bem, o Super‑Homem não tinha, na verdade, quaisquer poderes úteis. Todos temos os mesmos poderes, mas receamos admiti‑lo. As pessoas dizem sempre que o Batman não tinha poderes, mas o Super‑Homem tinha. Na verdade, é o oposto. Pense nisso: quando é que alguma vez precisaria de superforça? Vai mesmo pegar num carro nos próximos tempos? Não, é claro que não! Visão de calor? Para quê? Tenho um micro‑ondas. Visão raio X? Posso ver a mulher mais bonita do mundo nua sempre que quiser. Todos os meus vizinhos são horrendos mesmo vestidos. E todos sabemos que, geralmente, as mulheres são mais sensuais com roupas minúsculas do que totalmente nuas. E superaudição? Já sei o que é que toda a gente pensa de mim. Acho que ficaria horrorizado se as ouvisse dizer o que já sei que elas pensam.
Que mais? Ah, pois, voar. Para onde é que voaria? E as pessoas ver‑me‑iam. E comeria moscas e iria contra pássaros. Que nojo! Esqueça. Eu não quero voar. Nem sequer tenho carta de condução. Vou a pé. Ou vou de comboio, e vejo um filme no meu iPad. Ah, e as balas não afetam o Super‑Homem. Para ser sincero, nunca ninguém me deu um tiro, portanto, isto não me parece ser um poder útil para mim.

Contudo, o simples facto de saber que sou o Super‑Homem, com poderes secretos, basta para me fazer feliz. Eu sou o Super‑Homem. Estou acima das preocupações dos terráqueos. E acredito nisso com todas as forças que há em mim. Esse é o meu segredo.O segredo tem poder.

O único superpoder de que o leitor realmente precisa é o que o leva constantemente a perguntar, desde o segundo em que acorda até ao segundo em que adormece: «Que vida posso salvar hoje?» É uma prática. Muitas vezes, esquecemo‑la. Resistimos‑lhe. Em vez de salvarmos vidas, preocupamo‑nos demasiado em salvar‑nos a nós mesmos. «Como é que vou pagar as contas?» «O que é que faço em relação ao facto de o meu patrão dizer mal de mim?» E por aí adiante.

Em vez disso, o leitor recebe superpoderes se tiver tentado salvar pelo menos uma vida durante todo o dia. Experimente. Amanhã, acorde e diga: «Hoje vou salvar pelo menos uma vida.» Até aju‑dar uma velhinha a atravessar a estrada conta, ou até responder a um e-mail e ajudar alguém a tomar uma decisão importante. Até entrar em contacto com um amigo distante e perguntar «Como estás?» pode salvar‑lhe a vida. O leitor pode salvar uma vida hoje. Não deixe que o Sol se ponha sem ter feito isso. O leitor é o Super‑Homem.

Em Escolhe-te a Ti Mesmo, James Altucher, SELF.

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