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Da defesa à entrega

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Quando nos deparamos com uma situação de desconforto, a nossa tendência é fugir dela. Ninguém quer sofrer, parece óbvio! Se a presença de alguém nos cria mal-estar, a escolha mais comum é evitar cruzarmo-nos com essa pessoa. No entanto, nem sempre é fácil livrar-nos de quem consideramos ser a causa do nosso desânimo, pelo que nos sentimos condenados a ter de aguentar: é o caso de um familiar, de um colega, ou até de alguém que faz parte do nosso dia-a-dia. O mais paradoxal, e que tentarei explicar de seguida, é que se por um lado evitar a pessoa em questão ou tentar ignorá-la não resolve o nosso conflito interno, por outro, afastá-la faz com que a vida nos proporcione outros encontros que nos provocam desafios muito semelhantes.

Fica então o grande dilema: ‘como fazer para sair deste labirinto?’Pensamos que a saída nos distancia do sofrimento, mas outra grande aparente contradição ensina-nos que esse só se dissolve quando nos entregamos à experiência de viver o que tanto tememos. Sofremos mais pelo esforço de evitar que a chamada ‘cena temida’ se concretize do que por nos entregarmos à sua vivência, pois com esta vem a desmistificação do medo e, sobretudo, a possibilidade de sentirmos alegria e leveza.

Um dia fui fazer uma aula de Stand Up Paddle. Nunca me tinha colocado em cima de uma prancha no mar. Estava com uns nervos miudinhos que me proporcionavam um misto de receio – não sei do quê! – com entusiasmo. Embora saiba que muitos medos têm origens inconscientes e, portanto, são racionalmente inexplicáveis, questionava-me acerca do porquê daquela sensação de apreensão: o mar estava calmo, eu estava devidamente equipada e bem acompanhada, pelo que a causa permanecia desconhecida. Depois de ter entrado na água, o instrutor diz-me: ‘Vá Rossana, agora põe-te de pé’.

A medo, lá fiz o que me mandou. Consegui pôr-me de pé. ‘Vá, agora anda!’. ´Tenho medo!’ Gritava eu a rir-me, pois tinha noção do ridículo da situação. Perante aquela resposta, surgiu-lhe a mesma pergunta que já me tinha surgido a mim: ‘Mas tens medo de quê?’. Já nem ia ao porquê! E eu, completamente mergulhada naquela confusão emocional, respondi sem pensar ‘Tenho medo de cair!’. O comentário dele foi exatamente o que eu precisava de ouvir naquele momento: ‘Então cai para veres o que é que te acontece’. Em plena consciência da minha decisão, mas sem consciência nenhuma do resultado em termos de variação psicológica, abandonei o meu corpo e entreguei-me à sensação da queda na água. Uau! Até foi bom!

Libertei-me da tensão e comecei a conseguir finalmente desfrutar daquela aventura no mar, descontraída e focada no prazer dos pormenores mais hilariantes e inesperados. Mas isto só foi possível porque o meu medo se dissolveu no momento em que escolhi entregar-me à vivência da ‘cena temida’ com consciência, pois quando somos apanhados de surpresa, nem sempre temos a mesma sorte.

Em situações onde somos apanhados desprevenidos e nos sentimos em perigo, temos três reações instintivas: a fuga, o ataque ou o congelamento – isto é comum em todos os animais. Instintivamente fugimos quando sentimos não ter capacidade para derrubar o perigo iminente: se nos aparece um leão à frente, é mais natural desatar a correr do que tentar matá-lo –  a não ser que tenhamos armas e competências para isso, então nesse caso eventualmente atacamos para nossa defesa. Na terceira hipótese, dependendo da pessoa e do contexto, a tensão provocada pode ser tão grande que a reação não leva nem à fuga nem ao ataque, mas sim à paralisação.

Estas três possibilidades não são determinadas por um pensamento racional acerca de qual a melhor opção. Tudo acontece em frações de segundo. Ao pensar numa situação de ameaça à nossa sobrevivência, podemos ter uma ideia de como reagiríamos, mas só passando por ela é que sabemos.

Os exemplos acima descritos falam de sobrevivência física, mas servem-nos para fazer uma analogia com a sobrevivência psicológica, pois o mecanismo interno da nossa psique é o mesmo: há situações que põem em perigo a nossa estrutura psicológica, o nosso equilíbrio emocional, e as respostas são exatamente as mesmas. Uma pessoa que nos desperta medo, insegurança, ou através da qual nos sentimos atacados, vamos imediatamente defender-nos assumindo uma destas três atitudes: fugimos (evitamos a pessoa, fingimo-nos indiferente ou negamos o problema), atacamos (entramos em discussões, assumindo uma atitude arrogante ou de vítima), ou paralisamos (ficamos incapazes de contactar o que sentimos ou de dizer o que pensamos).

Ao contrário de um perigo real que põe em causa a nossa sobrevivência física, ter um destes três comportamentos numa situação de desconforto psicológico reflete uma atitude defensiva e, portanto, uma rejeição à possibilidade de aprendizagem e enriquecimento através da vivência da experiência. Defender-nos do exterior implica uma recusa a nos envolvermos com ele. Se muitas vezes essa defesa ainda é necessária – não sentimos ter estrutura para tal envolvimento –, muitas outras há em que essa defesa é apenas um muro que perpetua uma perceção subjetiva de hostilidade quando, na verdade, essa hostilidade já não existe.

Enquanto que fisicamente essas reações nos podem salvar a vida, psicologicamente elas reforçam a estagnação do nosso processo evolutivo. Quando não nos sentimos preparados para dar um passo diferente na nossa caminhada, fugir, lutar ou paralisar é a única forma de nos protegermos, tal como aprendemos em criança para nos defendermos do mundo ameaçador dos adultos. Responder evitando, entrando em conflito ou congelando não é negativo, desde que usado com a plena consciência de que ainda não se consegue fazer diferente. E haverá sempre momentos, contextos e situações onde talvez nunca consigamos fazer de outra maneira. Aprender e crescer estende-se pela vida inteira! O primeiro passo é só mesmo ganharmos esta consciência: se a fuga não resolve, o conflito distancia-nos e o congelamento aprisiona. E crescer psicologicamente também é assumir que ainda não se é capaz de ir por outra direção numa situação de ameaça.

No entanto, resistir à entrega traz-nos três grandes desvantagens: o padrão repete-se, por muito que se alterem as condições exteriores (contextos e/ou pessoas); o mal-estar vai aumentando, pois rejeitar pressupõe uma insistência em não olhar para o que grita por atenção; não traz crescimento psicológico.

Partindo do princípio que a realidade exterior não muda – acreditar que sim é a ilusão da nossa visão infantil –, a única solução é conseguir alterar algo em nós que nos faça sentir e percecionar esse exterior de forma diferente para que deixe de nos ferir. Mas alterar algo em nós não implica esforço, luta, adaptação e muito menos sujeição e passividade. Isso seria desrespeitar a nossa natureza. É como ser um girassol num campo de papoilas e esforçarmo-nos por ter pétalas vermelhas para evitar as diferenças.

Quando falo em mudança não me refiro ao exterior: nem dos outros, nem nossa em termos de ações ou aparências. Não é pintar as pétalas para fingir que agora somos papoilas, nem muito menos lutar para que todas as papoilas se transformem em girassóis. Quando era miúda e tinha problemas de obesidade dizia muitas vezes a mim própria: ‘eu não quero conseguir resistir à comida, eu quero é deixar de ter vontade de comer’, pois intuía que se a mudança fosse interna e profunda, o problema desaparecia.

Por experiência pessoal e profissional só vejo um caminho que dá espaço a uma real mudança interior: o caminho da entrega e da aceitação. Para isso temos de desviar o foco da nossa atenção de fora para dentro. Já Jung dizia que quem olha para fora ilude-se, quem olha para dentro desperta. Passar do mundo da fantasia – onde queremos tudo à nossa imagem e semelhança e nos enraivecemos quando os outros não sentem nem pensam como nós – para a realidade – onde a nossa esfera de ação se cinge ao sentimos e pensamos –, é um percurso extremamente difícil, pois implica uma viragem muito grande no modo como fomos habituados a viver a realidade.

Quando focamos a nossa atenção no exterior e nos revoltamos com o que vemos, isto acontece porque o fazemos através do filtro do nosso self infantil que exige tudo à sua maneira. Mesmo a classificação do que é (in)correto parte de uma escala de valores e crenças que não contempla divergências. Consideramos que a nossa leitura do mundo é a mais adequada e quem nos apresenta outras perspetivas é facilmente alvo de julgamento e exclusão do nosso espaço psíquico. Ora, o sofrimento advém precisamente da dificuldade em respeitarmos as diferenças e de aceitarmos a realidade (interior e exterior) pelo que é. É a luta por um mundo (interior e exterior) como o idealizamos que nos traz sofrimento e, com ele, vem a frustração e a desilusão. E claro, só se desilude quem se ilude; só se frustra quem cria expectativas.

entregaDe um ponto de vista social, há inúmeras situações que provocam em nós uma vontade de progresso, de desenvolvimento, e felizmente há pessoas capazes de intervir com vista a um mundo melhor. Claro que em contexto social há que olhar para fora, para o que nos rodeia, e fazer o que está ao nosso alcance para introduzir mudanças no que consideramos que não funciona adequadamente. No entanto, e porque somos pessoas com uma estrutura psicológica individual, só conseguimos contribuir adequadamente para um todo mais saudável quando individualmente temos uma estrutura psicológica igualmente saudável. Há uma sinergia entre o indivíduo e a sociedade impossível de quebrar, mas sabemos que a nossa contribuição para um mundo melhor, para relações mais nutridoras e enriquecedoras, reflete a nossa disponibilidade em acolher o que vem de fora como oportunidade de crescimento individual e não como como ataque à nossa identidade pessoal.

Falando então de um ponto de vista estritamente psicológico, de bem-estar individual, a possibilidade de transmutar o sofrimento em crescimento ganha espaço através de um olhar amorosamente curioso para as nossas dinâmicas internas, de uma aceitação dos conteúdos que fazem parte de nós – medos e desejos, inseguranças e necessidades, fragilidades e potencialidades –, de uma entrega a viver o que o exterior nos traz sem certezas do resultado, mas com a certeza de que não morremos interiormente.

É importante assumir a impermanência da vida, com a confiança de que, aconteça o que acontecer, não só a nossa estrutura interna sobrevive como pode ser fortalecida pelas aprendizagens que o caminho nos proporciona. Mas só as conseguimos fazer se nos entregarmos à exploração e descoberta do nosso mundo interior, estimulado por um exterior que muitas vezes sentimos como uma ameaça. Ao nos permitirmos olhar para a ameaça como uma oportunidade, abandonamos o esforço que fazemos para evitar a ‘cena temida’, baixamos as defesas, e entregamo-nos à riqueza da experiência.

Fica então aqui a minha sugestão: atiremo-nos às águas da vida com consciência, em contacto com o que sentimos e olhemos para o que acontece com abertura, pois enquanto não o fizermos vamos viver na tensão da fuga, do ataque ou do congelamento quando a vida pode ser bem mais serena e divertida!
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Por onde anda o Amor?

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Fala-se no desapego, na aceitação e no respeito pelas diferenças com uma certa simplicidade. É tão simples quanto raro, pois somos seres emocionalmente inseguros, com medo de sofrer e de reviver dores, pelo que a nossa visão hoje poderá estar mais aberta a conceitos como a liberdade, a impermanência e a incerteza, mas parte do nosso coração quer a segurança de que os nossos sentimentos são correspondidos e que recebemos o que precisamos para uma estabilidade emocional.

Todos temos necessidades psicológicas. Todos, sem exceção. Tal como uma planta precisa de água para sobreviver e florescer, nós precisamos de aceitação, nutrição afetiva, liberdade de expressão, confiança, reconhecimento e valorização. Transportamos as necessidades não supridas em criança para a fase adulta numa incessante busca no exterior do que nos falta no interior. Colocamos fora a esperança e a responsabilidade do nosso apaziguamento e enquanto mantivermos a fantasia de que os outros existem para nos completar, permanecemos na carência.

E relações pautadas pela carência nunca serão relações saudáveis. Mas relações pautadas pela desresponsabilização da atenção e do cuidado para com o outro também não.

O que é então uma relação saudável? Essencialmente, é um espaço onde recebemos a oportunidade de dar. Dar quem somos. Exprimir o nosso ser, nas suas fragilidades, forças e potencialidades. É onde o outro abre o coração com entusiasmo e vulnerabilidade para receber quem somos e partilhar quem é. E vice-versa. É onde os movimentos de dar e receber criam uma dança nem sempre confortável, mas que nos leva à expansão da consciência, a um crescimento psicológico e a uma evolução espiritual.

Recordo um episódio em que um dos meus irmãos ia ser submetido a uma cirurgia e precisava de alguém que o acompanhasse. Com uma certa preocupação por não me querer maçar, o que ele na verdade me deu foi o privilégio da partilha de uma experiência, sobretudo interior. Deu-me a oportunidade de lhe poder oferecer a minha companhia, a minha atenção, o meu afeto. E é no dar que nos preenchemos, não no receber. Receber acalma o ego; dar nutre a alma – e precisamos de ambos para a experienciar a plenitude da nossa existência.

O dar que nutre a alma pressupõe um ato de generosidade do que já existe dentro de nós. Só conseguimos acolher a dor/alegria de alguém quando acolhemos a nossa; só conseguimos respeitar as suas necessidades quando respeitamos as nossas; só conseguimos ser sinceros quando o somos connosco. Ao tentar dar uma qualidade ainda não desenvolvida, entramos em esforço e o esforço não só chega ao outro como um peso, como exige recompensa. Colocamos energia mental na ação (ex. eu tenho de o aceitar) sem o acompanhamento da energia emocional (ex. na verdade queria que ele fosse diferente). Assim, as ações caem no vazio da carência que desencadeia uma cobrança. Na carência, o dar é experienciado como um perder parte de si próprio: dar é sacrificar-se, é sujeitar-se, é abdicar da própria liberdade… Isso então não é dar, é desrespeitar-se. É trair-se. Invertendo posições, mas ainda na carência, receber também nunca é suficiente: a insatisfação perdura como um poço sem fundo.

Se o que sentimos é simplesmente não existir reciprocidade e sim um desequilíbrio entre o dar e o receber, então chegou o momento de nos perguntarmos o que nos mantem na relação. O saudável é dar sem a expectativa do retorno, mas não receber cria estagnação na dinâmica relacional. Os passos de apenas um desonram a essência da dança. A alma e o ego precisam de colaborar harmoniosamente na sua missão de dar e receber com autorrespeito e amorosidade. Aniquilar o ego é matar a nossa identidade; cortar a expressão à alma é abafar a nossa essência.

Parece tudo simples, mas as emoções ofuscam bastante o processo. Embora o sentimento de gostar seja a base a partir da qual vale a pena debater o resto, os medos levam-nos a defesas e a máscaras que nos aprisionam na experiência da insatisfação, da frustração e da cobrança. E isso não é amor. Isso é medo. É imaturidade. E no que toca às relações e à parte afetivo-emocional, somos ainda muito imaturos. Então por onde anda o amor? A paixão vive da imaturidade das carências, o amor vive da maturidade da consciência. Só na relação existe a possibilidade da transformação. Será que estamos disponíveis para a esse desafio?

No amor não pedimos, damos. No amor não queremos, partilhamos. No amor não cobramos, acolhemos. No amor não nos alimentamos, nutrimos. No amor não salvamos, cuidamos. No amor não exigimos, aceitamos. No amor não empurramos nem travamos, acompanhamos. No amor não conquistamos, apenas somos.

Na dança do amor estamos atentos a nós e integramos o parceiro. É o amor próprio que nos permite amá-lo. Mas o amor próprio não fica no próprio, exige expressão. Amor é compromisso, não no sentido de cumprir regras pré-estabelecidas segundo o rótulo da relação, mas compromisso consigo próprio em aceitar, respeitar e cuidar da pessoa que nos dá o privilégio de nos receber com o que temos para dar. Quando ambos damos, ambos recebemos. Essa é a dança de um encontro alquímico.

 «Ninguém cura ninguém e ninguém se cura sozinho. As pessoas curam-se no encontro. Apenas na alquimia do encontro ocorre a transformação.» – Roberto Crema
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Amar em viagem

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«A vida é uma viagem: é preciso aprender a conhecer o terreno, escolher uma direção, encontrar bons companheiros e usufruir do itinerário, pois no fim da estrada pode não existir nada.»  – Jonathan Haidt

Vejo muita ansiedade a borbulhar devido ao desejo de se ter uma relação amorosa. Ou porque se tem medo da solidão, ou porque a vida não faz sentido sem intimidade, ou porque se quer partilhar experiências e projetos com alguém em específico, ou porque é simplesmente aborrecido estar-se sozinho… Seja por que motivo for, ter um/a companheiro/a é um objetivo de muita gente. Um objetivo. Conquistado este objetivo, as ansiedades passam a ser outras, pelo que os objetivos mudam, mas mantêm-se.

Alcançada a primeira fase, entramos no registo de querer o outro à nossa imagem e semelhança. Ficamos estupefactos com a falta de semelhanças e a forma do outro pensar (que é diferente da nossa), a forma de sentir (que é diferente da nossa), e a forma de agir (que é diferente da nossa) começa a criar um fosso entre os dois. O que nos distingue e diferencia, em vez de nos enriquecer e aproximar, enfraquece-nos e distancia-nos. O outro, afinal, não é como gostaríamos que fosse: mais dinâmico, mais estável, mais comunicativo, mais sociável, mais criativo, mais romântico, mais emotivo, mais flexível, mais maduro, mais assertivo… enfim, tudo o que não é e provavelmente nunca será. E aqui deixa de nos servir. Já não o queremos. Não satisfaz as nossas necessidades, não encaixa na nossa forma de ser, não nos torna a vida como a sonháramos, pelo que descartamos.

Missão cumprida: procurar, ter, mudar, não serve – descarta. Passamos de objetivo em objetivo como se a vida afetiva fosse uma sucessão de aquisições que deitamos fora quando já não é útil ao nosso propósito.

Nesta correria de consumo de objetivos, onde fica o espaço para viver e apreciar o caminho?

O caminho é feito de desafios imprescindíveis ao nosso crescimento: medos que tentam travar a nossa entrega à experiência; obstáculos que põem à prova a nossa garra em superar o imprevisível; ajudas que nos inspiram a acreditar e a confiar no fluxo da vida; padrões antigos que boicotam essa confiança; testes que nos indicam a que ponto estamos no nosso percurso; feridas antigas que nos condicionam, mas que gritam para cuidarmos delas… Resumindo, ciclos de morte/renascimento com vista a uma consciência mais ampla. Do ponto de vista psicológico e existencial, o sentido da vida é evoluir e crescer, o que não é possível sem estes ingredientes.

E o ingrediente que não poderá faltar neste processo é, de facto, a relação – seja ela amorosa ou não, mas a amorosa potencia cada elemento presente na viagem. É na relação que experienciamos a plenitude da condição humana, pois sem o outro nada acontece dentro de nós, nada é ativado, nada é despertado, nada é sentido. No entanto, ao falarmos de um caminho a dois, além de nós há o outro – e muitas vezes esquecemo-nos disso: respeitar e honrar as diferenças, aceitar com gratidão o que nos proporciona como experiência interior, dar com compaixão, receber com humildade, sem esquecer que não existimos na sua vida para o salvar ou sermos salvos, mas sim para uma evolução como seres humanos.

À luz da evolução, até que ponto nos questionamos acerca do que podemos aprender e crescer com o outro? Quando nos cruzamos, o que é que o outro nos traz como mensagem, desafio, obstáculo, sonho…?

Se o virmos como mero objeto de satisfação das nossas necessidades, perdemos o sentido da sua existência na nossa. Perdemos o caminho, apenas vemos objetivos. Mas é no caminho que está a vida, a aprendizagem, o crescimento, a construção, pois no fim pode não haver nada, como diz Jonathan Haidt. É na exploração da relação, na curiosidade de conhecer as dinâmicas do outro e as nossas, no interesse em aprofundar sentires e crenças, na descoberta de diferenças que nos complementam, que o caminho se torna entusiasmante e construtivo. É num caminho de reciprocidade afetiva que vamos regando e nutrindo a confiança, o vínculo, a intimidade, a partilha, o querer estar, o aprender a falar ou a silenciar.

Entramos na vida uns dos outros para amar, mas no amor não há espaço para dependências, condicionamentos, rótulos, posses, exigências, cobranças, chantagens emocionais, trocas… no amor chega a haver o desejo de ver o outro feliz, mesmo quando não somos incluídos nas suas escolhas. No amor há uma liberdade de escolha sempre presente que anula o tão desejado compromisso, o qual nos dá a falsa segurança de que o outro nos pertence. É na liberdade do caminho que as pessoas se prendem; na prisão dos objetivos sufocam-se e querem-se distantes.

É na liberdade que validamos o que sentimos pelo outro e quando se tenta justificar ou perceber os porquês e os comos corre-se o risco de intoxicar o processo que, por natureza, se traduz num movimento de pulsação cíclico entre a distância e a aproximação. O que nos vincula uns aos outros não está ao alcance da nossa mente racional, mas está ao alcance do nosso coração se ousarmos mergulhar nas águas profundas, obscuras e únicas da viagem com outro ser. E isto é possível quando transmutamos o apego pela conquista do resultado pelo desapego de amar na caminhada.
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Sozinho ou acompanhado

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Se queres ir rápido vai sozinho, se queres ir longe vai acompanhado!

As relações interpessoais são um dos pilares mais importantes para uma vida feliz. Uma vida feita em conjunto com os outros ganha mais sentido, pois enriquece consideravelmente a experiência vivida. Se queres ir rápido vai sozinho, se queres ir longe vai acompanhado, diz um provérbio africano. De facto, as vivências têm sabores diferentes consoante caminhamos sozinhos ou acompanhados. Não é uma questão de certo ou errado, é uma questão do que sentimos ser fundamental para cada um de nós, em coerência com os nossos sonhos, desejos e necessidades mais profundas.

Se queremos uma vida rica e intensa do ponto de vista humano em termos de afetos, de aprendizagens, de partilhas, o importante não é ir rápido, mas sim longe, o mais longe possível. Ir rápido implica focar-se numa meta e querer chegar lá depressa, independentemente do ritmo dos outros; ir longe significa que a meta não é o mais importante, mas sim o caminho. E pelo caminho encontramos tudo o que precisamos para um percurso de crescimento humano, de desenvolvimento pessoal, de exploração de todo o nosso potencial para fazer frente às tempestades e às bonanças que naturalmente existem. Se queremos atravessá-las rápido talvez não consigamos captar o seu propósito no nosso percurso; se queremos chegar longe, tentamos integrá-las e com elas crescermos.

Chegar longe requer o cuidado de olhar para os que estão à nossa volta e de deixarmos que olhem para nós. No olhar recíproco está o reconhecimento e a valorização de uma relação.

As relações dão-nos o melhor que a vida nos pode dar. Por vezes basta um sorriso, um olhar, e sentimo-nos embebidos por um shot de energia e boa disposição que nos faz voar pela magia do universo. Mas também nos dão o pior, quando nos sentimos arrasados e tristes por uma desilusão, fruto de uma expectativa que criámos. A ausência de expectativa nas relações é o verdadeiro e tão difícil segredo para que através delas consigamos sentir o poder de voar, sem medos nem exigências. É maravilhoso dar a quem sabemos que não nos vai retribuir senão um sorriso, pois será um dar genuíno, não esperamos nada em troca. E é maravilhoso receber de quem não estávamos nada à espera, por vezes até um desconhecido é quem mais nos surpreende!

Se conseguíssemos olhar verdadeiramente para as pessoas que nos estão mais próximas com esse tal olhar inocente de um desconhecido, com um olhar de quem não está à espera de nada e de quem não se sente obrigado a dar nada, cada gesto seria sentido com infinita gratidão e maravilha. Deixaríamos que o encanto das relações, a genuinidade do dar e receber, a autenticidade de se ser quem se é, aflorasse a cada momento de interação.

Dar simplesmente porque sim, porque nos faz bem, porque é inevitável quando se é feliz. Permitir-se receber porque se merece, porque nos faz sentir importantes, porque valoriza a nossa existência. E neste dar e receber faz-se uma caminhada juntos, onde ninguém vai mais à frente nem mais atrás, mas sim lado a lado, porque é juntos que chegaremos longe, o mais longe possível.

Porém, só é possível ir lado a lado quando ninguém se puxa, se empurra, se pendura, quando ninguém exige, pressiona, chantageia; só é possível ir lado a lado quando cada um caminha por si próprio, na alegria de não estar sozinho.
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Usufruir da vida terrena

vida

Sob o tema da felicidade, vimos na primeira lição deste filósofo da Grécia Antiga que devemos encontrar um equilíbrio entre o que temos e o que nos é possível alcançar; na segunda lição de Epicuro foi referida a importância dos amigos; surge agora a terceira lição que nos fala da aprendizagem como um dos grandes prazeres da vida. Aprender contribui para a nossa felicidade não só porque a aprendizagem é uma tarefa coletiva de permanente debate de ideias com os outros, mas porque a descoberta, o conhecimento e a compreensão dos fenómenos do mundo nos permitem tomar consciência do que há de maravilhoso e único na existência humana.

No entanto, a maior ameaça que paira sobre a felicidade do ser humano – mesmo daqueles que são ricos ou poderosos – é o medo da morte e o medo do sofrimento para além da morte. Sobre esta questão, Epicuro defende uma posição materialista de grande sensatez. Se é certo que devemos evitar qualquer tipo de dor, a morte em si mesma é algo que não sentimos porque deixamos de sentir no preciso momento em que ela acontece. Dito de outro modo, enquanto cá estamos, a morte não existe, quando a morte existe, já cá não estamos. Da mesma maneira, não nos devemos inquietar com o que nos acontece depois da nossa morte, uma vez que os humanos e os deuses coabitam em mundos distintos.

Depois de morrer, não temos de recear a ameaça dos deuses ou do que quer que seja, pois pura e simplesmente não existindo já nada existe. Assim como nada existia para nós antes de nascermos, nada existe depois de morrermos.

Por isso, a conclusão que se impõe é que devemos aproveitar a vida o melhor que pudermos, tirando partido de todos os pequenos prazeres que ela diariamente nos propicia.
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A criança que grita

criança

O nosso Ser não se define de forma rigorosa e inflexível. A psique é como uma peça de teatro: temos o guião (a nossa história), o encenador (a consciência) e os personagens (as várias partes que em nós coexistem). Caracterizamo-nos por uma diversificação de identidades, as chamadas subpersonalidades, que ganham vida própria segundo a cena onde se encontram. Parecemos pessoas diferentes consoante o contexto e/ou os interlocutores e, no entanto, somos sempre os mesmos. Somos os mesmos, mas a nossa interação depende do que a outra pessoa ativa em nós. Há pessoas que nos ativam partes de que gostamos e, portanto, nos fazem sentir bem, há outras que nos ativam partes mais inseguras e nos criam desconforto. Das primeiras queremo-nos aproximar, das segundas tendemo-nos a afastar, mas na verdade as relações mais enriquecedoras são aquelas que ativam o variado leque que nos constitui. Uma relação que nos traz crescimento é aquela através da qual encontramos espaço e segurança para explorar, descobrir e viver quem somos na nossa plenitude.

O crescimento físico nem sempre se faz acompanhar por um correspondente crescimento psicológico. Não é a idade nem as experiências da vida que nos fazem amadurecer, mas sim o significado que damos ao mundo exterior e interior através dessas experiências. Há pessoas que já sofreram muito, mas ainda não encontraram um significado aos seus traumas, ainda não integraram a sua dor, ainda vivem na revolta e na zanga. Vão ficando cada vez mais fechadas na crença de que viver é sofrer. Olham para determinadas possibilidades como uma inevitável reabertura de feridas anteriores, rejeitando assim uma reprogramação do sistema neurológico.

Na rejeição à experiência há uma paragem no processo de crescimento. Este implica a abertura a novas vivências que nos alterem a perceção do mundo. Porém, se essas novas vivências reforçam a nossa velha perceção, significa que continuamos a boicotar e a travar o desenvolvimento psicológico. Algo nos impede de avançar: aquela parte de nós que ainda grita por atenção – a nossa criança interior.

As situações que mais nos fazem sofrer são aquelas que tocam numa parte do nosso Self que estagnou algures no tempo. O nosso Ser não cresce todo por igual, tornamo-nos adultos em certas partes, mas não noutras. Quando sentimos o chamado ‘aperto interior’, muito provavelmente é porque a nossa parte infantil foi espicaçada e, como tal, ainda não sabe lidar com o desafio de forma serena e madura. E então grita.

Uma cliente minha com filhos e sobrinhos já independentes, sentia que a sua família não lhe prestava a atenção de que ela gostaria. Considerava que agora que já ninguém precisava dela, não a contactavam com tanta frequência, pelo que a sensação de ‘só me ligam quando precisam’ começou a ganhar cada vez mais terreno. Mais tarde descobrimos que ela se recusava a ter iniciativas para procurar os seus familiares e assim satisfazer as suas necessidades de atenção e afeto pois, a partir da visão do seu Self Infantil ferido, eram os outros que deviam ter essa preocupação e cuidar dela.

Uma necessidade psicológica básica não satisfeita em criança cria-nos um vazio interior que nos leva a um mecanismo de busca constante desse preenchimento através dos outros. Projetamos nas nossas relações mais próximas o papel do cuidador que se ausentou e que nunca mais voltará. Enquanto não ganharmos essa consciência, a busca torna-se infindável e jamais encontrará descanso. Este registo traduz-se numa luta cujo desgaste psicológico é esgotante. Todos nós temos uma parte infantil ferida que grita, mas nem todos lhe dedicamos a atenção merecida.

Uma das minhas feridas tinha a ver com o terror de ser esquecida. Esta ferida criava-me tantas ansiedades que cada vez que fazia uma viagem enviava inúmeras mensagens a quem me esperava no aeroporto para ter a certeza de que a pessoa estava lá. Após um trabalho interior sobre esta dor apercebi-me de que a minha parte infantil magoada não só gritava perante a perceção do mínimo sinal de possibilidade de esquecimento, como cegava toda a dedicação dos outros para que eu me sentisse importante e inesquecível.

É incrível como acabamos por limitar a vivência das relações no reforço da que sempre tivemos. Estamos demasiado encouraçados para ver outras perspetivas, apenas vemos aquela que potencia os nossos medos e inseguranças, provocando consequentemente os habituais padrões de comportamento defensivos. Ao interagir a partir da parte infantil ferida que ainda não integrou a dor, as nossas ações refletem exatamente as de uma criança: grita, esperneia, é incapaz de ver ou ouvir o outro, não tolera a frustração, quer tudo à sua maneira, impõe as suas necessidades e sente o mundo contra si, pois este gira unicamente à sua volta.

Uma criança que precisa de atenção, perante uma plateia de 100 pessoas onde 99 lhe dão o que ela quer, fica perdida naquela única que não lhe liga nenhuma; uma criança que tem o medo do abandono perceciona cada movimento do outro como um risco; uma criança com o receio de ser humilhada evita ao máximo situações onde possa sentir tal ameaça; e por aí fora. Cada um de nós sente e perceciona o mundo hostil a partir das subpersonalidades cujo olhar ainda não se tornou adulto. Quando assim é, esse Self Infantil utiliza os mecanismos que aprendeu para se proteger e evitar que o seu grande medo (abandono, traição, humilhação, etc.) se concretize, não entendendo que ele próprio recria a armadilha de autoboicote.

Recorro frequentemente às palavras de Jung: ‘quando olhamos para fora iludimo-nos, quando olhamos para dentro despertamos’. A valorização do mundo interior é de suma importância na medida em que é aí que se encontra a resposta para os desafios que vivemos. O exterior espelha sempre o nosso interior. Nada nos atinge as entranhas se não tiver o propósito de despertar em nós a criança que grita e necessita de atenção e cuidados para crescer. Queremos ser adultos, maduros e lidar com as situações de forma serena? Não temos alternativa. Não é o exterior que muda, é o nosso interior que aprende a lidar com as situações a nosso favor, para o nosso equilíbrio e serenidade, sem culpa, sem sofrimento, sem rancor.

E como é que se faz para nos tornamos psicologicamente adultos? Não se trata de nos adaptarmos a uma realidade exterior que nos incomoda, muito menos de nos subjugarmos a quem nos desrespeita, antes pelo contrário! O primeiro passo é pegar na situação exterior e estudar o impacto que ela tem em nós, ou seja, conseguir ir além do sentimento de ‘ofensa’ e olhar para o que nos faz sentir. O exterior é a matéria-prima de que dispomos para o autoconhecimento. Identificar, reconhecer, validar e aceitar a nossa realidade interior, sem julgamentos nem repreensões.

Ao ouvirmos a criança a gritar, responder com amor e compaixão. Ela nunca parou de gritar, mas quando se cansou de o fazer para fora através do som, começou a fazê-lo para dentro através do sofrimento. Só com amor e compaixão é que ela começa a ganhar a maturidade de novas hipóteses e de novas visões, a contemplar que há espaço para a dor, para a frustração e para as incertezas da vida. Aí abandonamos a luta e começamos a atrair situações mais adequadas para um Self Adulto responsável, autoconfiante, autoconsciente, autónomo e que sabe cuidar das suas necessidades.

Quando aprendemos a cuidar de nós e largamos a crença de que ainda temos de ser cuidados, começamos a ver no nosso caminho outro tipo de pessoas. Pessoas que nos nutrem, mas sem a expectativa de nos salvarem. Apenas olhando para a verdadeira necessidade escondida por detrás de um padrão defensivo e revoltado é que nos disponibilizamos a crescer e a desfrutar a nossa existência com mais alegria e entusiasmo.

Uma relação em crescimento é aquela que ativa o desconforto do nosso Self Infantil, pois obriga-nos a não nos esquecermos dele, mas, simultaneamente, nos dá o nutrimento necessário para não cairmos no rancor e na amargura. A criança grita, a relação nutre, mas quem cuida somos nós. E só quando aprendemos a cuidar da nossa criança interior ferida, com amor e compaixão, estaremos disponíveis para entrar em relações íntimas enriquecedoras, pautadas pela partilha da plenitude do nosso Ser e pela entreajuda no processo de crescimento, pois só conseguimos dar o que já existe em nós e só conseguimos receber o que a nossa realidade interior perceciona.