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Um episódio de assédio sexual

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“Assédio sexual: conjunto de atos ou comportamentos, por parte de alguém em posição privilegiada, que ameaçam sexualmente outra pessoa.” – Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora

Em Março de 2016, quando comecei a preparar a minha primeira viagem ao Irão, pedi que me aceitassem como membro de um grupo no Facebook chamado “See You in Iran”. Fui rapidamente integrada na comunidade e estou muitíssimo grata por toda a ajuda que me tem sido providenciada através dos muitos contactos que tenho estabelecido por lá. Se as minhas duas viagens ao Irão foram um sucesso devo-o, em parte, à generosidade de todos os que compõem a comunidade “See You in Iran”, sejam eles iranianos ou de outras nacionalidades.

Este grupo — fundado em Agosto de 2015 e que caminha a passos largos para os 115 mil membros — tem como principais objectivos pôr em contacto a população local com viajantes que tencionam visitar ou já tenham visitado o país e, através da partilha de relatos livres de censura, desconstruir a injusta “iranofobia” ainda vigente. Porém, enganam-se aqueles que pensam que por lá se postam apenas fotografias de paisagens, monumentos, comida ou comentários simpáticos acerca dos amigos que se fizeram, da extrema afabilidade do povo iraniano ou do quanto as férias passadas no país foram perfeitas. Não, no “See You in Iran” também se discute política nacional (recentemente, postou-se sobre a eleição presidencial do passado dia 19 de Maio e a utilidade do voto nas condições em que é exercido), política internacional (desde as baboseiras do Trump à crise dos refugiados) ou a obrigatoriedade do uso do hijab, entre outros aspectos culturais, sociais e religiosos do país. Pode-se dizer que “See You in Iran” é um espaço de democracia virtual que não tem paralelo no Irão real.

Poucos dias depois de ter voltado da minha primeira viagem ao Irão (que correu lindamente e teria sido perfeita não tivesse eu sido detida e levada para uma esquadra em Teerão, uma história que contarei noutra ocasião), chegou-me, também via Facebook, o relato da viajante Alex Reynolds — uma jovem americana que anda a viajar pela Eurásia com o namorado holandês desde Fevereiro de 2016 — publicado num jornal online australiano, com o título “Iran wins the prize for high frequency harrassment”. No texto, Alex relata os múltiplos episódios de assédio sexual a que esteve sujeita durante a sua visita à antiga Pérsia, episódios que se sucederam a um ritmo nunca antes experimentado em qualquer outro país que tivesse visitado.

Dada a minha experiência inócua e sempre cordial com os homens iranianos, o testemunho de Alex surpreendeu-me. Tinha acabado de regressar a Portugal com a recordação de iranianos que não falavam comigo nem me olhavam nos olhos quando os abordava na rua para pedir indicações, que raramente me cumprimentavam apertando a mão (só mesmo os mais novos o ousam) ou que me cediam o lugar no metro mesmo que eu fosse sair na paragem seguinte. Tivesse eu, na altura, feito uma simples pesquisa com a expressão “sexual harassment” dentro do grupo “See You in Iran”, ou mesmo uma pesquisa no Google com as palavras “sexual harassment in Iran”, e teria percebido de imediato que o assunto era sério e tinha barbas. Ingenuamente, preferi ignorar a avalanche de reacções ao texto de Alex e pensar que ela tinha tido azar. Até ao dia em que voltei ao Irão e me aconteceu o mesmo.

Andava eu a passear sozinha no Jardim Dolat Abad — um exemplo máximo dos refinados jardins persas, que a UNESCO classificou como Património Mundial da Humanidade — quando, numa área mais remota, ainda que junto ao comprido tanque central do recinto, um grupo de cinco homens que estavam a trabalhar na limpeza do espaço me pediram, apontando para eles e dizendo apenas “foto?”, que lhes tirasse uma fotografia. Estavam todos sentados no chão, sobre uma manta, a fazer uma pausa para tomar chá. Não estranhei o pedido. Já me tinha sido feito dezenas de vezes por homens, mulheres e crianças quer nesta segunda visita ao Irão, quer na primeira viagem, há seis meses. Por isso acedi de boa vontade e tirei-lhes a fotografia. Agradeceram e ofereceram-me chá, que eu recusei com delicadeza. Um deles, que parecia ter funções de chefe e que vestia roupas mais finas, levantou-se e disse-me “selfie?” Outra vez nada de novo, já acontecera muitas, muitas vezes. Por isso, fiz a selfie com o meu telemóvel de boa vontade.

Foi então que o cavalheiro, que não falava uma palavra de inglês, começou a falar comigo em farsi. Apontava para ele e fazia um gesto que parecia indicar-me que se ia embora. Encolhi os ombros, abanei veementemente a cabeça e acompanhei os gesto com as palavras “Lamento, mas não entendo, não falo farsi” (em inglês), numa tentativa de deixar bem claro que não o entendia. Mas o senhor não desistiu. Continuou a falar e eu continuei a dizer que não entendia à medida que começava a afastar-me. Os outros, sentados no chão, riam-se e trocavam olhares cúmplices. Nesta fracção de segundos intuí que alguma coisa não estava bem. Até que o homem que tentava comunicar comigo, num esforço último para se fazer entender, se debruçou um pouco mais sobre mim, me olhou intensamente, apontou para ele, depois para mim, depois para longe e recorreu às duas mãos para fazer um gesto ordinário, universal e inequívoco. Foi então que entendi o que queria: estava a sugerir que fosse com ele para outro lugar para que nos envolvêssemos sexualmente. Primeiro fiquei incrédula e depois furiosa. Levantei a voz, fiz cara de nojo e chamei-lhe de tudo, em português e em inglês. A risota dos outros, em vez de parar, intensificou-se, o que achei insultuoso. Nisto aproximaram-se duas iranianas — com quem tinha tirado uma fotografia meia hora antes e que falavam um pouco de inglês — que me perguntaram o que se estava a passar. Contei-lhes o sucedido. Disseram qualquer coisa ao homem — a meia voz e de cabeça em baixo, sem o encarar —, que fugiu por entre os arbustos. Não voltei a vê-lo. Por fim, as senhoras pegaram num dos meus braços e sugeriram que continuasse a caminhar e os ignorasse. Foi o que fiz ao mesmo tempo que, ainda a tremer, apagava as fotografias do meu telemóvel. Mas não foi o suficiente para me recompor: o episódio (que embora tenha sido o mais grave, não foi o último) transtornou-me e demorei um par de dias a refazer-me.

No calor do momento, a experienciar um misto de nojo e desilusão, acedi ao grupo “See You in Iran” e postei o seguinte: “Segunda vez no Irão, primeiro episódio de assédio sexual”. A torrente de reacções e de comentários foi de tal ordem que os administradores do grupo tiveram de fechar o post a interacções. Mais tarde, já em Portugal, e por causa de todas as generalizações, conclusões, deduções e acusações infundadas que me fizeram, investi um par de horas a redigir um texto em inglês onde forneci detalhes sobre o sucedido e respondi, globalmente e na medida do possível, às centenas de comentários ao post anterior. Sobretudo porque queria deixar claro que muita gente tinha posto na minha boca palavras que jamais proferiria, me atribuíram ideias, valores atitudes que jamais adotaria e inferiram críticas sociais, políticas e religiosas que, de facto, não expressei. Regista-se nova torrente de reacções. Desta vez, os administradores do grupo, numa clara tomada de posição, recorrem também à conta do Twiter do “See You in Iran” para argumentar que o assédio sexual no contexto do turismo e das viagens não deve ser banalizado. “Dizer que acontece em todo o lado não é argumento. Grita e denuncia”, incentivaram eles.

A maior parte das pessoas que reagiram aos meus posts, iranianas ou não, lamentaram profundamente que eu tivesse vivido aquele triste episódio. Muitas quiseram saber se eu estava bem, ofereceram-me ajuda e até companhia caso eu ainda passasse pelas suas cidades e me sentisse vulnerável. Surpreendeu-me, em particular, a quantidade considerável de iranianas — a viver no país ou emigradas — que denunciaram também o constante assédio sexual a que são ou foram submetidas no Irão. Algumas turistas partilharam, ainda, experiências semelhantes à minha ou ainda piores.

Porém, o que foi verdadeiramente repugnante e quase me deixou mais chocada do que a atitude do homem que me assediou, foi constatar o elevado número de comentários misóginos, sexistas, machistas, ignorantes e desculpabilizantes vindos de homens e mulheres de todas as origens e faixas etárias. Para eles o assédio sexual não é assunto e que o releguem ao estatuto de ninharia, de coisa que nem sabem bem o que é, revolta-me até à mais ínfima partícula do meu corpo. A absoluta falta de empatia manifestada por esta gente chega a ser doentia. Deixo-vos aqui algumas das opiniões manifestadas:
“E então? Acontece em qualquer lugar do mundo / Só queres chamar a atenção / Que drama queen / És uma exagerada / Oh meu Deus! Como pudeste sobreviver a isso?! Chamaste uma ambulância? / Insultas e denigres o Irão em tempos sensíveis para o país / Lanças pânico injustificado / Assustas centenas de potenciais turistas / O método não funciona? É assim que tenho tentado arranjar uma namorada / Talvez o teu comportamento o tenho justificado / Como estavas vestida? / Achou-te bonita, qual é o problema? / Em São Paulo uma prima minha quase foi violada por um grupo de homens e não anda para aí a queixar-se / Apalparam-me as mamas na Tailândia e não me fui queixar no Facebook / Passei pelo mesmo no Camboja e não me queixo / Já passei por pior em dois anos na Rússia. Cresce! / Encara o assunto como um elogio pouco eloquente / Não podes culpar um país inteiro / Estás a reduzir a tua experiência no Irão a isto / Pelo menos o homem teve a decência de te pedir / Não tenho a certeza que isso seja assédio sexual / As feministas levam sempre este assunto demasiado longe / Por causa do teu post mais de vinte pessoas foram banidas do grupo / Foi a primeira vez que um homem pediu para ter relações sexuais contigo? / Fazes com que isto pareça um exclusivo do Irão. És tão ignorante! / Honestamente, acho que rir disto é mais proactivo e ajuda mais a pessoa a restabelecer-se do que ter pena dela / Pelo menos não foste violada nem morta.”

Sim, eu sei que o assédio sexual existe em qualquer parte do mundo. Não sou ingénua. Quando era adolescente fui sexualmente assediada por um colega na escola. A minha mãe teve de intervir. Bastou um telefonema para que a perseguição de meses terminasse. Está perdoado há muito, mas não está esquecido de forma nenhuma. E uma vez, enquanto caminhava na rua, um homem que se cruzou comigo no passeio apalpou-me o peito. Foi há mais de 30 anos e também não esqueci. Mas assim como nunca me passou pela cabeça deduzir que todos os homens portugueses são tarados por causa de uma mão cheia de más experiências, também o que vivi em Yazd não me permite concluir que todos os homens iranianos são uns pervertidos. Isso seria estúpido e injusto. E não me parece que estes sejam adjectivos que me assentem.
Não, nunca tinha sido sexualmente assediada fora do país. E já visitei mais de quarenta países em todos os continentes. A experiência mais próxima do assédio sexual que vivi foi em Goa, na Índia. Chegavam à praia excursões de indianos com o único propósito de fotografar e filmar com os telemóveis mulheres ocidentais em biquíni (sem pedir autorização, claro!) e às vezes aproximavam-se demasiado dos seus alvos. Honestamente, não foi coisa que me incomodasse por aí além, mas vi muitas turistas furiosas. Sempre que alguma mulher comenta comigo que tenciona passar uns dias na praia em Goa, partilho esta minha experiência. É o que passarei a fazer em relação ao que vivi no Irão.

O assédio sexual é, no meu entender, um assunto sério e grave em qualquer contexto. Não tenho a intenção de desvalorizá-lo. Denunciá-lo-ei sempre que me acontecer, aconteça onde acontecer. E incentivarei todos os que vivem experiências destas — mulheres ou homens — a fazê-lo também. Basta de fazer de conta que não ouvimos ou que não vimos. Basta de baixar os olhos e continuar a caminhar. É preciso gritar, denunciar e educar.

A maior parte de vós nunca me ouvirá falar de viva voz acerca do que sinto pelo Irão. Mas muitos de vós podem ler nestas crónicas ou nos textos que publico no Acordofotografico.com os meus sentimentos pelo país. Não posso negar um misto de emoções: se por um lado não digiro a teocracia, o patriarcado, a falta de liberdade e o rebaixamento generalizado das mulheres, por outro sinto-me fascinada pela história, pela milenar cultura persa e, acima de tudo, pelo povo ultra-acolhedor. Só isso justifica que me tenha arrepiado de novo, vezes sem conta, neste regresso, sempre que alguém me dizia na rua “Bem-vinda ao Irão!” Só isso explica que me tenha emocionado, grata, a cada gesto generoso de mulheres, homens e crianças. É por isso que digo com orgulho que tenho amigos iranianos. E é por isso defenderei sempre o povo iraniano e incentivarei as viagens ao Irão.

No que me diz respeito, a vontade de lá ir as vezes que quiser (desde que obtenha o visto…) não foi de todo beliscada. Antes pelo contrário. Não vejo a hora de voltar levando comigo a lição aprendida.