Publicado em

A linha surpreendente

pessoa

«A vida é breve, a alma é vasta (…)» – Fernando Pessoa em Mensagem

Em Setembro de 2004 li Mala de senhora e outras histórias, de Clara Ferreira Alves. Dos doze contos que o livro contém, marcou-me um chamado Os Dias de Durban. Nesta história, uma mulher deprimida mata-se e deixa ao lado da cama um livro aberto de Fernando Pessoa. Ao procurar uma razão para a despedida súbita, o viúvo dá por si a folhear livros e descobre a obra do poeta. É então que aproveita um ano sabático e parte para Durban, a cidade onde Pessoa viveu quando era menino; a cidade que a sua mulher morta conhecia bem porque tinha nascido não muito longe dali, em Moçambique.

Foi por causa deste conto que, volvidos dez anos, também eu percorri as ruas daquela cidade à procura de indícios do poeta.

Na grande viagem que fiz em 2014, a ida à África do Sul não estava nos meus planos. Surgiu como alternativa à visita a Angola, já que as autoridades deste país não me facilitaram a obtenção de um visto de turista. Gosto de pensar que há males que vêm por bem: a nação arco-íris, como lhe chamou Nelson Mandela, é esplendorosa e apesar de todos os seus problemas graves, prefiro tê-la no meu currículo de viajante a ter o país agrilhoado de Zé Du. Depois de uma passagem breve por Joanesburgo e quatro dias de sonho no Kruguer Park, voei para Durban onde aterrei a meio de Julho. Pude, durante 5 dias, voltar a ver o Índico de que me tinha despedido prematuramente em Zanzibar. E pude, também, largar os agasalhos que me protegeram de temperaturas quase negativas nos dias de safari. Em Durban, quinhentos quilómetros a sul, o Inverno austral assemelha-se à Primavera do meu Algarve.

Na manhã do dia 17 de Julho eu e a Nilza, a minha companheira de viagem, deixámos o Bed & Breakfast no bairro de Melville para ir no encalce de Fernando Pessoa. Parti com o estômago cheio de ovos estrelados, bacon frito, feijão com molho de tomate, tomate assado, torradas e café. Nas mãos levava um mapa da cidade. Fomos primeiro em busca de uma das moradas do poeta, na antiga Ridge Road. Mas a casa já não existe e são poucos os indícios da rua que Pessoa terá conhecido no fim do Século XIX: dum lado e doutro da longa estrada vi apenas casas e prédios modernos rodeados por muros altos e arame farpado, bombas de gasolina, lojas e armazéns. Voltámos para trás e atravessámos a zona rica e branca de Essenwood para desembocar na St. Thomas Street. É aí que fica o Durban High School, onde Fernando Pessoa estudou entre 1899 e 1904.

Nuns semáforos, estávamos nós a tentar perceber se o colégio ficaria acima ou abaixo do cruzamento onde nos encontrávamos, fomos abordadas por uma mulher sexagenária, branca, de olhos claros e chamada Sandra — sim, Sandra como eu — que interrompeu a sua caminhada com bastões para nos oferecer ajuda. Intrigada com a nossa determinação em visitar um colégio exclusivo para rapazes, começou por avisar-nos que a instituição estava fechada por ocasião das férias de Inverno. Mas depois quis saber por que razão queríamos tanto lá ir. Quando lhe expliquei que éramos portuguesas, que estávamos a fazer uma volta ao mundo que tinha como mote a lusofonia e que queríamos conhecer a escola onde tinha estudado um dos nossos maiores poetas, Sandra abriu os olhos com o tamanho da surpresa: nunca tinha ouvida falar desse tal de Fernando Pessoa. Mas, contagiada pelo nosso entusiasmo e pela nossa história, fez questão de nos acompanhar até à entrada da escola fechada e ajudar-nos a conseguir autorização para uma visita.

Não foi preciso grande esforço: o porteiro, habituado à visita de portugueses com o mesmo propósito que o nosso, escancarou o sorriso e o portão e acompanhou-nos ele mesmo aos pontos mais significativos. Percorremos, então, os espaços amplos e estranhamente silenciosos da grande escola para avistar o painel de azulejos com uma estrofe de Pessoa inaugurado por Mário Soares, um retrato emoldurado desenhado por Júlio Pomar e, cá fora, em destaque num dos principais pátios do recinto, um busto do poeta em bronze. Desse ponto, avistava-se o campo relvado, lugar para partidas de râguebi e críquete disputadas entre alunos. E para lá dos muros da escola, a cidade de Durban a espraiar-se colina abaixo até ao oceano.

O último destino do nosso périplo pessoano em Durban era a baixa da cidade, onde fica a Praça Pessoa. Mas antes disso, fomos até ao apartamento da Sandra que nos convidou para tomar café, conhecer o seu marido e conversarmos mais sobre a aventura que eu e a Nilza havíamos começado quatro meses antes. Entre chávenas e bolachas, ainda tivemos tempo para ver fotos de família, saber dos filhos e dos netos, dos episódios mais felizes e das dificuldades ultrapassadas, assim como da paixão da Sandra pelas terapias alternativas. E rimo-nos desta nova coincidência: não só partilhávamos o nome, como tínhamos o Reiki em comum.  Por último, ainda procurámos na internet a localização exacta da Praça Pessoa, que tanto a Sandra como o marido desconheciam. Uma vez identificado o sítio, a Sandra ofereceu-nos boleia e partimos as três em direcção a um outro busto do poeta.

À medida que o carro se aproximou da baixa da cidade, percebemos que a Sandra não ia connosco apenas movida pela curiosidade: na verdade, não tinha qualquer intenção de nos deixar ir sós a uma zona de Durban que ela mesma não frequentava havia anos. Os edifícios degradados, o lixo e os sem-abrigo eram apenas três sinais do perigo latente. Nos quinze minutos que demorámos entre o parque de estacionamento, a praça e o regresso ao carro, não vimos um único branco e a forma como fomos olhadas enquanto registávamos o momento com fotografias apressadas acentuou a sensação de desconforto. Abandonámos o lugar rapidamente e Pessoa, rodeado de gente ociosa sentada no muro que delimita a praça, ficou de novo entregue a um anonimato que não merece.

Antes de nos despedirmos, ocorreu-me perguntar à Sandra se saberia de alguma actividade a que pudéssemos associar-nos no dia seguinte. A 18 de Julho assinala-se o Mandela Day e nesta data, que seria a do seu aniversário, pessoas em todo o globo e particularmente na África do Sul assumem a responsabilidade de contribuir para um mundo melhor levando a cabo uma boa acção em prol da comunidade. Ocorreu-lhe, nesse momento, levar-nos até ao hospício onde é voluntária há mais de vinte anos e onde providencia terapias alternativas aos internados. A maior parte das tarefas para o dia seguinte estavam distribuídas pelos muitos voluntários pontuais, mas o quarto dos brinquedos frequentado pelas crianças que acompanham familiares em dias de visita estava a precisar de uma atenção urgente. Na manhã seguinte ficámos encarregues de arrumá-lo.

Não foi coisa que tivesse demorado muito tempo: em pouco mais de hora e meia a divisão ficou organizada e os brinquedos irremediavelmente partidos colocados no lixo. Por essa altura, já a manhã estava a chegar ao fim, a Sandra veio ter comigo e perguntou-me se eu não gostaria de me juntar a ela numa última sessão de Reiki. O caso era particularmente delicado, já que o paciente, recém internado e muito jovem, tinha recusado qualquer ajuda noutras ocasiões. Mas naquele dia, o Dia de Mandela, um dia de esperança, ele disse que sim e eu entrei num quarto onde se morria.

Siabonga — Sia como toda a gente o chamava com carinho — era um menino de 18 anos, magérrimo, a quem tinham amputado um braço e que lutava com muita dor por cada golfada de oxigénio engarrafado que inspirava. Porque estava em tronco nu, pude ver que qualquer coisa artificial palpitava sob a pele do seu peito, junto ao coração. Ao pescoço trazia um daqueles colares multicoloridos feitos de elásticos, tão em voga na altura. Todo e qualquer movimento era feito com extrema lentidão e implicava um esforço sobre-humano: erguer o tronco com a ajuda de almofadas ou sentar-se na beira da cama provocava um sofrimento que a morfina já não atenuava. Encontrámo-lo visivelmente agitado, mas a música que a Sandra pôs a tocar, o incenso que perfumou o quarto e o calor das nossas mãos acalmaram-no aos poucos. De olhos quase sempre fechados e respiração serenada, falou apenas em duas ocasiões: pediu que a ventoinha fosse aproximada do seu rosto e elogiou o colorido das minhas pulseiras. Expliquei-lhe que as tinha comprado no decorrer da viagem e enumerei os países à medida que lhas mostrava. Quando deixámos o quarto, a Sandra alegrou-se pela ligação que se tinha estabelecido entre mim e ele. Ficou combinado que na segunda-feira seguinte, o meu último dia em Durban, voltaríamos juntas ao hospício para uma nova sessão de Reiki com Sia.

Nessa segunda-feira Sia já não deu pela nossa presença. A morfina tinha-o levado para uma espécie de limbo. Na extremidade da cama, coloquei as minhas mãos sob a planta dos seus pés enormes e calosos e já não me concentrei numa energia que viesse aliviar as suas dores; concentrei-me numa energia que pudesse abraçá-lo e levá-lo rapidamente. Antes de sair do quarto, disse à Sandra que tinha trazido uma pulseira para lhe oferecer. “Ele está a morrer, Sandra, não vai perceber”, disse-me. Mas já sentadas no carro, olhou para mim e perguntou “Queres ires dar-lhe a pulseira?”. Voltei para trás. No quarto, alguns familiares de Sia esperavam em silêncio pelo fim. Os rostos pediam alívio e supus que a luta tivesse sido lenta, longa. Dirigi-me à cama sem falar a ninguém, peguei no seu braço esquerdo e inanimado e coloquei-lhe no pulso uma pulseira trazida de Timor. E então, baixinho, falei-lhe da ilha, da luta do seu povo, chorei e despedi-me. O Sia morreu cerca de duas horas depois, quando eu me dirigia ao aeroporto para rumar à Cidade do Cabo.

Esta é a história de como, de forma simples e do nada, aconteceu na minha vida desenhar-se uma linha surpreendente que une para sempre cinco pessoas: Fernando, Sandra, Nelson, Sia e eu.

Como escreve Clara Ferreira Alves, no tal conto que me marcou: “Certas viagens são um desígnio”.
Publicado em

Tentem um pouco de gentileza

gentileza

«Nada pode tornar a nossa vida ou a vida das outras pessoas mais bela do que a perpétua gentileza.» – Lev Tolstoi

Vivo num segundo andar, mas deixei de usar o elevador há alguns anos. Um dia destes, saí de casa para ir ao supermercado e quando descia o último degrau da escadaria que me leva ao rés-do-chão, dei de caras com a porta do elevador que se abria. Saiu de lá um homem, que nunca tinha visto antes, com uma ferramenta qualquer na mão. Depreendi que estivesse a trabalhar no apartamento em obras. Por uma fracção de segundos ficámos face a face e olhámo-nos olhos nos olhos. Não trocámos palavra, o que foi um mau prenúncio. Depois, ele seguiu à minha frente em direcção à porta do edifício e eu fui no seu encalce, dois passos atrás. O homem aproximou-se da porta, abriu-a, saiu, largou-a e deixou-a bater a centímetros do meu nariz.

Fiquei perplexa. E furiosa. Mas decidi não perder a compostura. Abri e fechei a porta com calma, aproximei-me do homem, que se preparava para partir num automóvel, e em voz alta e tom irónico disse-lhe: “Muito obrigada por me ter segurado a porta”. Foi a vez do cavalheiro ficar perplexo. Mas não demorou muito a perceber onde tinha falhado. Pediu-me desculpa como quem me fazia um especial favor. No passeio, gente apercebia-se da cena e abrandava o passo. Insisti: “Isso é que foi simpatia, heim!?”. Aí, o cavalheiro já não gostou. Voltou a pedir-me desculpa, mas com maus modos. Voltei-lhe as costas e segui o meu caminho.

Quando este episódio ocorreu, estava fresca na minha memória uma conversa tida com uma amiga numa tarde de café combinado na baixa. Foi num dos feriados do início de Dezembro e as ruas abarrotavam de turistas deliciados com a beleza da cidade e a simpatia dos portugueses, tão propalada quando falam de nós. Comentávamos o quanto a cidade tinha mudado para melhor, o quanto é bom para os nossos bolsos e para o nosso ego que gente estrangeira se enamore assim do Porto e de Portugal.

Mas a minha amiga insistia numa sensação de dissonância porque, dizia ela, no seu dia a dia, no trato com os seus concidadãos, de igual para igual e sem o deslumbre de uma passagem fugaz pela Invicta, não é simpatia que vê: antes egoísmo, alheamento e descortesia, porque todos nos estamos a fechar cada vez mais nas nossas bolhas e a olhar cada vez mais para os nossos umbigos, ignorando os estranhos que cruzam o nosso caminho. É o clássico “cada um por si” ou a variante “nem reparei”. E que fique claro, raros são os que vivem imunes a este fenómeno. Sou a primeira a dar a mão à palmatória.

Gosto de paradoxos. Instigam-me a olhar para certos aspectos da minha vida e da nossa vida colectiva num constante ir e voltar entre pontos de vista distintos. Ao pensar no que queria escrever neste texto, apercebi-me dum paradoxo muito do nosso tempo: se por um lado, no foro privado, vivemos na convicção de que temos tudo controlado ou na constante tentativa de tudo controlar em prol de uma vida melhor para nós e para a família que amamos, por outro, a nível colectivo, achamos que nada podemos fazer para mudar o mundo para melhor, que isso não está nas nossas mãos e que até os políticos — a quem delegamos essa tarefa por intermédio do voto como quem sacode a água do capote — têm manifestamente pouco poder para tal.

É neste contexto que me deparo com uma promoção fantástica e compro a 5€ um livro que estava na minha lista há três anos: A Revolução do Amor, do filósofo francês Luc Ferry. Sabia em traços gerais ao que ia, mas não podia adivinhar o quanto o livro faria sentido na fase da vida em que me encontro e as contribuições valiosas que tem adicionado às minhas reflexões sobre o “estado das coisas”, reflexões por vezes pontuadas por uma certa desesperança e falta de paciência para os outros. Foi, portanto, por causa de uma promoção que eu, optimista incorrigível que acredita piamente na capacidade individual para mudar o mundo, fui encontrar em Luc Ferry alguém muitíssimo mais optimista quanto ao caminho que a humanidade leva. Este é um dos seus argumentos:

“(…) as experiências mais fortes que vivemos na esfera da intimidade desde a invenção da união familiar amorosa [o autor refere-se ao casamento por amor em oposição ao casamento por conveniência] não nos concentram sobre nós mesmos de forma ‘individualista’ (…) É na verdade precisamente o contrário que se passa. Ainda há pouco, quando, numa família burguesa (…) uma jovem ficava grávida fora do casamento (…) as pessoas apressavam-se a fechar as portas e as janelas, a mentir ao exterior e, se possível, também no interior, para proteger as conveniências. A lógica do amor leva-nos a pouco e pouco até outros horizontes, a outras atitudes, a lógicas de compreensão mais abertas e, por isso mesmo, mais colectivas. Quando uma família conhece um acidente de percurso (…), o mais frequente, hoje em dia, é abrir-se a novas sensibilidades, a alargar mais do que a fechar o horizonte ­— no que o privado se torna cada vez mais um factor de abertura aos outros, portanto à esfera pública e não o inverso.”

Tudo isto para chegar ao que vos quero propor no início deste novo ano: um exercício mais simples, talvez, que o amor (alguns poderão achar estranha esta ideia de sair por aí “amando” desconhecidos), a empatia ou até o civismo (um valor mais abrangente, mais complexo, mais exigente). Proponho-vos que tentemos, no nosso dia a dia, abrirmo-nos a “outros horizontes, a outras atitudes, a lógicas de compreensão mais abertas (…) mais colectivas” sendo genuinamente gentis.

Vamos mudar o mundo ao segurar a porta a quem nos segue, a dar prioridade a pais com crianças ao entrar nos transportes públicos, a cumprimentar o motorista do autocarro, a elogiar o sorriso da menina do supermercado, a agradecer ao automobilista que pára na passadeira, a ceder passagem no trânsito, a desejar bom dia ao vizinho com cara de poucos amigos. Vamos mudar o mundo agradecendo ostensivamente a gentileza dos outros para connosco com sonoros “Obrigada!”, para que percebam o quanto apreciamos o seu gesto, o quanto estamos gratos por essa centelha que não devemos dar por garantida. E vamos mudar o mundo não desmoralizando quando a gentileza é esquecida por alguém ou quando os outros estranharem esta atitude, acharem que somos tolinhos ou mansos e se atreverem até a fazer troça.

A gentileza é altamente contagiosa. Um dia também os descrentes estarão do nosso lado.

Bom ano!

Publicado em

Um episódio de assédio sexual

assédio

“Assédio sexual: conjunto de atos ou comportamentos, por parte de alguém em posição privilegiada, que ameaçam sexualmente outra pessoa.” – Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora

Em Março de 2016, quando comecei a preparar a minha primeira viagem ao Irão, pedi que me aceitassem como membro de um grupo no Facebook chamado “See You in Iran”. Fui rapidamente integrada na comunidade e estou muitíssimo grata por toda a ajuda que me tem sido providenciada através dos muitos contactos que tenho estabelecido por lá. Se as minhas duas viagens ao Irão foram um sucesso devo-o, em parte, à generosidade de todos os que compõem a comunidade “See You in Iran”, sejam eles iranianos ou de outras nacionalidades.

Este grupo — fundado em Agosto de 2015 e que caminha a passos largos para os 115 mil membros — tem como principais objectivos pôr em contacto a população local com viajantes que tencionam visitar ou já tenham visitado o país e, através da partilha de relatos livres de censura, desconstruir a injusta “iranofobia” ainda vigente. Porém, enganam-se aqueles que pensam que por lá se postam apenas fotografias de paisagens, monumentos, comida ou comentários simpáticos acerca dos amigos que se fizeram, da extrema afabilidade do povo iraniano ou do quanto as férias passadas no país foram perfeitas. Não, no “See You in Iran” também se discute política nacional (recentemente, postou-se sobre a eleição presidencial do passado dia 19 de Maio e a utilidade do voto nas condições em que é exercido), política internacional (desde as baboseiras do Trump à crise dos refugiados) ou a obrigatoriedade do uso do hijab, entre outros aspectos culturais, sociais e religiosos do país. Pode-se dizer que “See You in Iran” é um espaço de democracia virtual que não tem paralelo no Irão real.

Poucos dias depois de ter voltado da minha primeira viagem ao Irão (que correu lindamente e teria sido perfeita não tivesse eu sido detida e levada para uma esquadra em Teerão, uma história que contarei noutra ocasião), chegou-me, também via Facebook, o relato da viajante Alex Reynolds — uma jovem americana que anda a viajar pela Eurásia com o namorado holandês desde Fevereiro de 2016 — publicado num jornal online australiano, com o título “Iran wins the prize for high frequency harrassment”. No texto, Alex relata os múltiplos episódios de assédio sexual a que esteve sujeita durante a sua visita à antiga Pérsia, episódios que se sucederam a um ritmo nunca antes experimentado em qualquer outro país que tivesse visitado.

Dada a minha experiência inócua e sempre cordial com os homens iranianos, o testemunho de Alex surpreendeu-me. Tinha acabado de regressar a Portugal com a recordação de iranianos que não falavam comigo nem me olhavam nos olhos quando os abordava na rua para pedir indicações, que raramente me cumprimentavam apertando a mão (só mesmo os mais novos o ousam) ou que me cediam o lugar no metro mesmo que eu fosse sair na paragem seguinte. Tivesse eu, na altura, feito uma simples pesquisa com a expressão “sexual harassment” dentro do grupo “See You in Iran”, ou mesmo uma pesquisa no Google com as palavras “sexual harassment in Iran”, e teria percebido de imediato que o assunto era sério e tinha barbas. Ingenuamente, preferi ignorar a avalanche de reacções ao texto de Alex e pensar que ela tinha tido azar. Até ao dia em que voltei ao Irão e me aconteceu o mesmo.

Andava eu a passear sozinha no Jardim Dolat Abad — um exemplo máximo dos refinados jardins persas, que a UNESCO classificou como Património Mundial da Humanidade — quando, numa área mais remota, ainda que junto ao comprido tanque central do recinto, um grupo de cinco homens que estavam a trabalhar na limpeza do espaço me pediram, apontando para eles e dizendo apenas “foto?”, que lhes tirasse uma fotografia. Estavam todos sentados no chão, sobre uma manta, a fazer uma pausa para tomar chá. Não estranhei o pedido. Já me tinha sido feito dezenas de vezes por homens, mulheres e crianças quer nesta segunda visita ao Irão, quer na primeira viagem, há seis meses. Por isso acedi de boa vontade e tirei-lhes a fotografia. Agradeceram e ofereceram-me chá, que eu recusei com delicadeza. Um deles, que parecia ter funções de chefe e que vestia roupas mais finas, levantou-se e disse-me “selfie?” Outra vez nada de novo, já acontecera muitas, muitas vezes. Por isso, fiz a selfie com o meu telemóvel de boa vontade.

Foi então que o cavalheiro, que não falava uma palavra de inglês, começou a falar comigo em farsi. Apontava para ele e fazia um gesto que parecia indicar-me que se ia embora. Encolhi os ombros, abanei veementemente a cabeça e acompanhei os gesto com as palavras “Lamento, mas não entendo, não falo farsi” (em inglês), numa tentativa de deixar bem claro que não o entendia. Mas o senhor não desistiu. Continuou a falar e eu continuei a dizer que não entendia à medida que começava a afastar-me. Os outros, sentados no chão, riam-se e trocavam olhares cúmplices. Nesta fracção de segundos intuí que alguma coisa não estava bem. Até que o homem que tentava comunicar comigo, num esforço último para se fazer entender, se debruçou um pouco mais sobre mim, me olhou intensamente, apontou para ele, depois para mim, depois para longe e recorreu às duas mãos para fazer um gesto ordinário, universal e inequívoco. Foi então que entendi o que queria: estava a sugerir que fosse com ele para outro lugar para que nos envolvêssemos sexualmente. Primeiro fiquei incrédula e depois furiosa. Levantei a voz, fiz cara de nojo e chamei-lhe de tudo, em português e em inglês. A risota dos outros, em vez de parar, intensificou-se, o que achei insultuoso. Nisto aproximaram-se duas iranianas — com quem tinha tirado uma fotografia meia hora antes e que falavam um pouco de inglês — que me perguntaram o que se estava a passar. Contei-lhes o sucedido. Disseram qualquer coisa ao homem — a meia voz e de cabeça em baixo, sem o encarar —, que fugiu por entre os arbustos. Não voltei a vê-lo. Por fim, as senhoras pegaram num dos meus braços e sugeriram que continuasse a caminhar e os ignorasse. Foi o que fiz ao mesmo tempo que, ainda a tremer, apagava as fotografias do meu telemóvel. Mas não foi o suficiente para me recompor: o episódio (que embora tenha sido o mais grave, não foi o último) transtornou-me e demorei um par de dias a refazer-me.

No calor do momento, a experienciar um misto de nojo e desilusão, acedi ao grupo “See You in Iran” e postei o seguinte: “Segunda vez no Irão, primeiro episódio de assédio sexual”. A torrente de reacções e de comentários foi de tal ordem que os administradores do grupo tiveram de fechar o post a interacções. Mais tarde, já em Portugal, e por causa de todas as generalizações, conclusões, deduções e acusações infundadas que me fizeram, investi um par de horas a redigir um texto em inglês onde forneci detalhes sobre o sucedido e respondi, globalmente e na medida do possível, às centenas de comentários ao post anterior. Sobretudo porque queria deixar claro que muita gente tinha posto na minha boca palavras que jamais proferiria, me atribuíram ideias, valores atitudes que jamais adotaria e inferiram críticas sociais, políticas e religiosas que, de facto, não expressei. Regista-se nova torrente de reacções. Desta vez, os administradores do grupo, numa clara tomada de posição, recorrem também à conta do Twiter do “See You in Iran” para argumentar que o assédio sexual no contexto do turismo e das viagens não deve ser banalizado. “Dizer que acontece em todo o lado não é argumento. Grita e denuncia”, incentivaram eles.

A maior parte das pessoas que reagiram aos meus posts, iranianas ou não, lamentaram profundamente que eu tivesse vivido aquele triste episódio. Muitas quiseram saber se eu estava bem, ofereceram-me ajuda e até companhia caso eu ainda passasse pelas suas cidades e me sentisse vulnerável. Surpreendeu-me, em particular, a quantidade considerável de iranianas — a viver no país ou emigradas — que denunciaram também o constante assédio sexual a que são ou foram submetidas no Irão. Algumas turistas partilharam, ainda, experiências semelhantes à minha ou ainda piores.

Porém, o que foi verdadeiramente repugnante e quase me deixou mais chocada do que a atitude do homem que me assediou, foi constatar o elevado número de comentários misóginos, sexistas, machistas, ignorantes e desculpabilizantes vindos de homens e mulheres de todas as origens e faixas etárias. Para eles o assédio sexual não é assunto e que o releguem ao estatuto de ninharia, de coisa que nem sabem bem o que é, revolta-me até à mais ínfima partícula do meu corpo. A absoluta falta de empatia manifestada por esta gente chega a ser doentia. Deixo-vos aqui algumas das opiniões manifestadas:
“E então? Acontece em qualquer lugar do mundo / Só queres chamar a atenção / Que drama queen / És uma exagerada / Oh meu Deus! Como pudeste sobreviver a isso?! Chamaste uma ambulância? / Insultas e denigres o Irão em tempos sensíveis para o país / Lanças pânico injustificado / Assustas centenas de potenciais turistas / O método não funciona? É assim que tenho tentado arranjar uma namorada / Talvez o teu comportamento o tenho justificado / Como estavas vestida? / Achou-te bonita, qual é o problema? / Em São Paulo uma prima minha quase foi violada por um grupo de homens e não anda para aí a queixar-se / Apalparam-me as mamas na Tailândia e não me fui queixar no Facebook / Passei pelo mesmo no Camboja e não me queixo / Já passei por pior em dois anos na Rússia. Cresce! / Encara o assunto como um elogio pouco eloquente / Não podes culpar um país inteiro / Estás a reduzir a tua experiência no Irão a isto / Pelo menos o homem teve a decência de te pedir / Não tenho a certeza que isso seja assédio sexual / As feministas levam sempre este assunto demasiado longe / Por causa do teu post mais de vinte pessoas foram banidas do grupo / Foi a primeira vez que um homem pediu para ter relações sexuais contigo? / Fazes com que isto pareça um exclusivo do Irão. És tão ignorante! / Honestamente, acho que rir disto é mais proactivo e ajuda mais a pessoa a restabelecer-se do que ter pena dela / Pelo menos não foste violada nem morta.”

Sim, eu sei que o assédio sexual existe em qualquer parte do mundo. Não sou ingénua. Quando era adolescente fui sexualmente assediada por um colega na escola. A minha mãe teve de intervir. Bastou um telefonema para que a perseguição de meses terminasse. Está perdoado há muito, mas não está esquecido de forma nenhuma. E uma vez, enquanto caminhava na rua, um homem que se cruzou comigo no passeio apalpou-me o peito. Foi há mais de 30 anos e também não esqueci. Mas assim como nunca me passou pela cabeça deduzir que todos os homens portugueses são tarados por causa de uma mão cheia de más experiências, também o que vivi em Yazd não me permite concluir que todos os homens iranianos são uns pervertidos. Isso seria estúpido e injusto. E não me parece que estes sejam adjectivos que me assentem.
Não, nunca tinha sido sexualmente assediada fora do país. E já visitei mais de quarenta países em todos os continentes. A experiência mais próxima do assédio sexual que vivi foi em Goa, na Índia. Chegavam à praia excursões de indianos com o único propósito de fotografar e filmar com os telemóveis mulheres ocidentais em biquíni (sem pedir autorização, claro!) e às vezes aproximavam-se demasiado dos seus alvos. Honestamente, não foi coisa que me incomodasse por aí além, mas vi muitas turistas furiosas. Sempre que alguma mulher comenta comigo que tenciona passar uns dias na praia em Goa, partilho esta minha experiência. É o que passarei a fazer em relação ao que vivi no Irão.

O assédio sexual é, no meu entender, um assunto sério e grave em qualquer contexto. Não tenho a intenção de desvalorizá-lo. Denunciá-lo-ei sempre que me acontecer, aconteça onde acontecer. E incentivarei todos os que vivem experiências destas — mulheres ou homens — a fazê-lo também. Basta de fazer de conta que não ouvimos ou que não vimos. Basta de baixar os olhos e continuar a caminhar. É preciso gritar, denunciar e educar.

A maior parte de vós nunca me ouvirá falar de viva voz acerca do que sinto pelo Irão. Mas muitos de vós podem ler nestas crónicas ou nos textos que publico no Acordofotografico.com os meus sentimentos pelo país. Não posso negar um misto de emoções: se por um lado não digiro a teocracia, o patriarcado, a falta de liberdade e o rebaixamento generalizado das mulheres, por outro sinto-me fascinada pela história, pela milenar cultura persa e, acima de tudo, pelo povo ultra-acolhedor. Só isso justifica que me tenha arrepiado de novo, vezes sem conta, neste regresso, sempre que alguém me dizia na rua “Bem-vinda ao Irão!” Só isso explica que me tenha emocionado, grata, a cada gesto generoso de mulheres, homens e crianças. É por isso que digo com orgulho que tenho amigos iranianos. E é por isso defenderei sempre o povo iraniano e incentivarei as viagens ao Irão.

No que me diz respeito, a vontade de lá ir as vezes que quiser (desde que obtenha o visto…) não foi de todo beliscada. Antes pelo contrário. Não vejo a hora de voltar levando comigo a lição aprendida.