Publicado em

Voltar a casa, depois do Irão

irão

«Recusava-me, pura e simplesmente, a acreditar que existisse de facto um país tão completamente mau. Fui porque estava convencida de que tinha de haver mais qualquer coisa. E porque gosto de ir à procura de santos onde me dizem que há demónios.» Alison Wearing em Lua de Mel no Irão

As minhas viagens nunca começam no dia em que parto. Começam quase sempre no momento em que decido que um dia irei a um determinado lugar.

Às vezes, o tempo que medeia entre a decisão e a partida é curto — um par de meses ou uma mão cheia de semanas. Como aquele Verão em que um namorado fez um estágio nos EUA e fui visitá-lo a Boston. Ou a noite de réveillon em Portugal, em que uma amiga me desafiou a festejar a chegada do ano do Dragão em Pequim. Pouco depois, aterrava na China. São oportunidades que decido agarrar, pretextos para passar algumas semanas em cidades que não eram prioritárias.

Outras vezes, entre o desejo e a concretização da viagem podem passar-se muitos anos. Foi o que aconteceu com o Brasil. Não sei apontar exactamente quando nasceu o sonho de lá ir. Talvez ele já estivesse no meu ADN. Julgo ter sido concebida ao som de uma bossa nova ou de um samba. E se não foi isso que aconteceu, ter desembarcado numa casa onde, para além dos meus pais, viviam Caetano, Betânia, Chico, Tom, Vinícius, Jorge, Erico e José Mauro bastou para marcar o meu destino. Sempre que estudava os Descobrimentos na escola, a ideia de ir ao Brasil era uma borboleta a voltear no meu estômago e quando finalmente lá pus os pés pela primeira vez, aos vinte e dois anos, Salvador da Baía era-me tão familiar que me convenci que já lá estivera noutra vida.

As minhas viagens começam quando uma notícia, um documentário, um filme, uma fotografia, uma música, um livro — quase sempre um livro! — ou até mesmo alguém que admiro me inculca uma imagem na cabeça e começo a ver-me nesse lugar: Stone Town porque lá nasceu Freddy Mercury; Roben Island onde Nelson Mandela esteve preso dezoito anos; São Paulo, para visitar o Museu da Língua Portuguesa; Brasília, por causa da Catedral de Niemeyer; a Cidade Proibida, que me foi apresentada por Bertolucci; as cataratas de Iguaçú por causa da música de Morricone; a Patagónia depois de ler Chatwin; Goa graças a Gonçalo Cadilhe; a Sinagoga dos Portugueses, em Amesterdão, por causa do romance de Yalom; os tenements de Nova Iorque explicados no livro de Augias.

E depois, durante as viagens, quando estou finalmente nos sítios com que tanto sonhei, tenho de fazer um exercício constante de tomada de consciência e dou por mim a repetir mentalmente: “Eu estou aqui. Tenho os pés aqui. Toco nestes muros com as minhas mãos. Respiro este ar. Mergulho nestas águas. Quero recordar para sempre as cores deste quadro, o aroma desta cidade, a musicalidade deste idioma que não entendo, este sabor que demoro a identificar. Experiencio em primeira mão, não há intermediários, fotografias, filmes ou livros. Eu estou aqui”. Procuro manter-me alerta, não deixar escapar nada, demorar-me, diluir-me. E agradecer o privilégio. Tudo foi possível porque persisti no sonho e agi para concretizá-lo. Mas também porque outros factores que não controlo se conjugaram na perfeição. Por isso, agradeço.

As minhas viagens nunca terminam no momento em que chego a casa. Nos primeiros dias acontece-me rejeitar a minha realidade. Não ligo a televisão, não ouço rádio, vou pouco à rua, não quero saber de nada, faço-me bicho do mato. Quando voltei da Argentina, resgatei um velho CD de Andrés Calamaro, que pus a tocar em loop, para que o seu sotaque porteño continuasse a embalar as minhas horas. Depois de Marrocos, condimentei durante meses os pratos mais rudimentares com uma mistura de especiarias para tagines. Regressada da China continuei a comer em tigelas e com pauzinhos. Voltei à Índia nas páginas d’ O Tigre Branco, à África do Sul com Um Longo Caminho Para a Liberdade, ao Brasil a cada romance de Jorge Amado e ao Japão pela mão de Banana Yoshimoto. O meu corpo deixara estes países, mas a minha alma continuava lá.

Decidi em 2001 que visitaria o Irão. Devo-o a Alison Wearing e ao seu livro Lua de Mel no Irão, que comprei por impulso no dia 6 de Agosto daquele ano, atraída pela capa. O que mais retive deste relato de viagem foram as pessoas, o surpreendente povo iraniano que até então era para mim apenas o eco das notícias: uma amálgama de gente ignorante e retrógrada, subjugada pela teocracia islâmica radical que lançara uma fatwa risível contra Salman Rushdie. Alison Wearing, contudo, levou-me a descobrir o Irão para além dessa ponta do icebergue e aguçou-me fatalmente a curiosidade. Uma curiosidade que sobreviveu a quinze anos, um mês e dezoito dias de espera. Aterrei em Teerão na manhã do dia 25 de Setembro de 2016.

Quantas vezes podemos nós alimentar expectativas em relação a um país durante anos, demorar meses a planear e a limar as arestas do roteiro, dissecar guias de viagens, vasculhar sites e blogues com as aventuras dos outros, requisitar livros na biblioteca, ver filmes e fotografias e falar com nativos expatriados, para depois chegar lá e ver as expectativas ultrapassadas? Talvez muito poucas. Mas foi o que me aconteceu. As três semanas que passei no Irão roçaram a perfeição. E não imaginam o quanto fui feliz.

E sim, as paisagens são estarrecedoras; os monumentos, deslumbrantes; a gastronomia, delicada; a mescla das heranças persa e árabe, fascinante. Toda a cultura iraniana, nas suas variadas formas de expressão, é riquíssima, sedutora e naturalmente próxima da portuguesa nalguns aspectos. Mas o que me arrebata são as pessoas. As pessoas para além dos seus líderes políticos e religiosos, da geopolítica, das intrigas internacionais, do petróleo, da energia nuclear, da corrupção. As pessoas que me deram as boas vindas ao Irão todos os dias ao passear pelas ruas, me abriram as portas das suas casas, me serviram chá, me deram de comer e me permitiram ver através dos seus olhos um país que grande parte do mundo teima em distorcer. As pessoas como eu, que vivem o seu dia a dia o melhor que podem e que, tal como eu, só querem ser felizes apesar de tudo.

Mas desta vez o regresso a casa foi diferente. Mal entrei no avião da British Airways que me trouxe de volta, as primeiras palavras que dirigi ao comissário de bordo foram para perguntar se podia tirar o hijab. Depois de levantarmos voo e o sinal do cinto se ter apagado, fugi para a casa de banho numa ânsia de despir a túnica lúgubre comprada em Yazd, que me disfarçava a formas do corpo. E ao chegar a casa liguei o rádio que debita as músicas mais comerciais e lancei-me sobre a televisão, vagueei pelas centenas de canais, voltei às séries do costume e vi vários filmes de enfiada, não sem antes ter saído à rua exibindo as cores garridas que adoro e o cabelo recém lavado, que deixei secar ao ar livre. Desta vez não houve qualquer sentimento de nostalgia ao ver o país afastar-se pela janela do avião, nem me fechei na minha “bolha” ao chegar. Pelo contrário, precisei sofregamente da minha realidade comezinha, do que de mais imediato e fácil ela tem para me oferecer. Sem grandes cogitações, nem filosofias. Apenas alívio.

Tudo nesta vida é discutível. Quiçá, o conceito de liberdade à cabeça. Muitos tratados já foram escritos sobre este tema e muitos outros se seguirão. Os mais cépticos (ou os mais cínicos?) dir-me-ão, por exemplo, que o meu sentimento de liberdade é ilusório. Ser-se-á realmente livre em Portugal? Bem, se compararmos com o que testemunhei no Irão dir-vos-ei sem dúvida que sim. E por que razão me atingiu particularmente a falta de liberdade no Irão se já visitei outros países de povos amordaçados? Talvez porque nunca antes tivesse sentido verdadeiramente o peso da discriminação com base no meu sexo.

Senti-a primeiro no que é mais superficial e visível — o vestuário. Precisaria de mais tempo para experienciar a opressão diária das iranianas para além das camadas de tecido negro que as cobrem. Porém, é ingénuo pensar que o hijab e o chador são apenas roupa. Não são. São o sintoma mais evidente da repressão constante a que as mulheres estão sujeitas por força dos costumes e das leis feitas pelos homens (e tristemente defendidas por uma certa franja de mulheres…). No mínimo o hijab e o chador são um dos muitos sintomas da falta de liberdade de escolha. Que o digam algumas das iranianas que viajaram comigo no avião: preferiram livrar-se dos lenços e acompanharam as suas refeições com um copo de vinho.

Precisamente quinze dias após o meu regresso a Portugal comecei a ler O Menino de Cabul. Sabia que pelo menos parte do romance se passaria no Afeganistão. O que eu não sabia é que estava prestes a voltar ao Irão pelas mãos de Khaled Hosseini. Bastou que mencionasse o mármore de Isfahan, a mesquita de Mashad, o bazar de Teerão e que um personagem se despedisse de alguém com um “Khodafez” — que Deus te guarde — para que um dique se abrisse no meu peito: senti saudades pungentes do Irão! E soube que precisava de escrever este texto.

Sim, o Irão tem muitos demónios. Que país, não os tem? Mas o Irão tem muitos mais santos, santos que para mim têm nomes e rostos muito concretos, santos que eu quero na minha vida. Peço-lhes desculpa pela minha ignorância e arrogância, declaro-lhes o meu fascínio pela sua terra e espero, com humildade, que me abram as portas das suas casas pelo menos mais uma vez. Porque haverá sempre mais qualquer coisa para ver, aprender e compreender melhor.

Quero voltar ao Irão. Hei de voltar ao Irão. Inshallah!
Publicado em

A casa, está na cabeça ou no coração?

casa

Quando era miúda e vivia em França, às portas de Paris, tinha uma vizinha chamada Fabienne, pouco mais velha que eu, que habitava um apartamento no último andar do prédio. Fabienne dispunha de duas coisas que eu queria um dia ter também: um cão e um terraço.

O cão acabou por surgir na minha vida, aliás na vida da minha família, por essa altura, na forma de um rafeiro nascido de uma história bonita. A mãe era o bicho de estimação de um casal luso-francês, uma boxer que gostava de vinho do Porto; o pai, um perdigueiro resgatado na ponte 25 de Abril pelo mesmo casal, durante umas férias em Portugal. Chamaram-lhe Tejo. E nós chamámos Tobby ao nosso rafeiro, um nome nem luso, nem francês.

Já o outro sonho teve de esperar muito mais para se materializar. Esperou quase trinta anos. Quis a vida — sempre irónica, sempre a dar com uma mão quando tira com a outra —, que o sonho se concretizasse na pior fase de todas, a do meu divórcio. Foi por isso uma alegria encontrar tão rapidamente este pequeno T1 com terraço. Soube de imediato que era aqui que queria viver, sobretudo depois da antiga proprietária me ter confidenciado, de barriga proeminente, que aqui tinha sido muito feliz.

O que eu não sabia é que a minha condição de ex-doente oncológica me arrastaria para longos meses de batalhas com bancos e seguradoras para fazer valer direitos que o Estado me atribuía para a compra de habitação própria e dos quais nunca quis abdicar, apesar das sugestões asquerosas de algumas entidades bancárias: mentir ou sonegar informação acerca da minha condição clínica às seguradoras que, espantem-se!, lhes pertenciam.

Valeu-me o advogado que trabalhou pro bono no meu caso e a ajuda de uma familiar que aceitou ser minha fiadora. Quando pude finalmente pôr as chaves na porta do apartamento tinha a conta bancária quase a zero, sentia-me revoltadíssima e estava esgotada. Os primeiros meses após a mudança não foram fáceis. Estava zangada com o apartamento. Mas acabei por fazer as pazes. Lembro-me que me senti em casa pela primeira vez no ano seguinte, quando regressei de uma viagem à Patagónia. Senti-me em casa depois de ter ido ao fim do mundo.

De lá para cá, seja em que circunstância for, chegar a casa é uma bênção. Expresso num sussurro o quanto é bom abrir a porta do apartamento e entrar. “Tão bom, tão bom, tão bom…” é normalmente o que digo enquanto pouso a tralha, me descalço e suspiro. É assim que exteriorizo a minha infinita satisfação, a paz e, acima de tudo, a imensa gratidão pelo luxo deste conforto.

Talvez influenciada pela atitude da antiga proprietária, sempre achei que este cantinho com terraço transborda boa energia e a verdade é que, apesar de um ou outro episódio menos bom, tenho sido feliz no meu T1 recheado com muita simplicidade. E acredito, ainda, que a casa me retribui toda a atenção que lhe dispenso, porque sou eu que a limpo, que a arrumo, que a decoro, que até procedo a pequenos arranjos (mesmo que por vezes mal amanhados…) e jardino. Adoro a minha casa e o melhor elogio que me podem fazer é dizerem-me que aqui se sentem bem.

Há umas semanas, no decorrer de um breve curso que fiz na Universidade do Porto, disse-me a professora que o meu arquétipo é claramente o do nómada. Isto não constituiu para mim qualquer surpresa. Sempre o soube. Foi o que me levou a estudar Relações Internacionais, por exemplo. Nessa época de estudante universitária, ganhei uns trocos a dar explicações de inglês a um colega muito mais velho que eu, finalista do curso de Antropologia. Contou que assim que se formasse, pegava numa pequena trouxa e partia para África para viver com uma tribo e estudá-la. E eu ouvia esta história e sonhava fazer o mesmo um dia, pôr uma mochila às costas e partir. Não sei quando me perdi e me desviei desse caminho, distraída com coisas que raramente me fizeram sentir plena.

Curioso é que a nómada que há em mim tenha voltado a despertar quando comprei este T1 em Matosinhos. A nómada que lateja cá dentro é também aquela que está prestes a bater um recorde: nunca antes tinha vivido dez anos na mesma casa! E se nenhuma revolução acontecer na minha vida até ao final deste ano (acreditem que não posso de todo afastar esse cenário…), Matosinhos, que é a oitava cidade onde assentei arraiais, passará a ser oficialmente aquela onde mais tempo vivi. E porém, nunca viajei tanto como nestes últimos dez anos. Este é um daqueles paradoxos que dá mais sabor à vida.

Perguntava-me há pouco tempo um homem se seria capaz de viver num determinado sítio, fora de Portugal. Respondi que ando tão em paz comigo e com o mundo que acho que sou capaz de viver em qualquer lugar. Se for ao lado de uma pessoa de quem gosto, melhor ainda. Fui sincera. Mas se o fizesse, custar-me-ia deixar os meus exíguos domínios em Matosinhos. Ando a desprender-me dos bens materiais, mas este meu espaço vai muito além de mera matéria. Já tem muita história e muitas memórias.

Por isso me pergunto com frequência — afinal onde está a casa: na cabeça (feita de razão, sensatez, segurança e memórias) ou no coração (feita de paixões, impulsos, aventuras e recomeços)? A casa são as paredes e o terraço ou sou eu e aqueles de quem gosto?

Estou, por agora, a tentar ficar com o melhor de dois mundos. Quero ter um pé aqui e outro perdido sei lá onde. Não é fácil. Mas hei de conseguir.

Publicado em

A linha surpreendente

pessoa

«A vida é breve, a alma é vasta (…)» – Fernando Pessoa em Mensagem

Em Setembro de 2004 li Mala de senhora e outras histórias, de Clara Ferreira Alves. Dos doze contos que o livro contém, marcou-me um chamado Os Dias de Durban. Nesta história, uma mulher deprimida mata-se e deixa ao lado da cama um livro aberto de Fernando Pessoa. Ao procurar uma razão para a despedida súbita, o viúvo dá por si a folhear livros e descobre a obra do poeta. É então que aproveita um ano sabático e parte para Durban, a cidade onde Pessoa viveu quando era menino; a cidade que a sua mulher morta conhecia bem porque tinha nascido não muito longe dali, em Moçambique.

Foi por causa deste conto que, volvidos dez anos, também eu percorri as ruas daquela cidade à procura de indícios do poeta.

Na grande viagem que fiz em 2014, a ida à África do Sul não estava nos meus planos. Surgiu como alternativa à visita a Angola, já que as autoridades deste país não me facilitaram a obtenção de um visto de turista. Gosto de pensar que há males que vêm por bem: a nação arco-íris, como lhe chamou Nelson Mandela, é esplendorosa e apesar de todos os seus problemas graves, prefiro tê-la no meu currículo de viajante a ter o país agrilhoado de Zé Du. Depois de uma passagem breve por Joanesburgo e quatro dias de sonho no Kruguer Park, voei para Durban onde aterrei a meio de Julho. Pude, durante 5 dias, voltar a ver o Índico de que me tinha despedido prematuramente em Zanzibar. E pude, também, largar os agasalhos que me protegeram de temperaturas quase negativas nos dias de safari. Em Durban, quinhentos quilómetros a sul, o Inverno austral assemelha-se à Primavera do meu Algarve.

Na manhã do dia 17 de Julho eu e a Nilza, a minha companheira de viagem, deixámos o Bed & Breakfast no bairro de Melville para ir no encalce de Fernando Pessoa. Parti com o estômago cheio de ovos estrelados, bacon frito, feijão com molho de tomate, tomate assado, torradas e café. Nas mãos levava um mapa da cidade. Fomos primeiro em busca de uma das moradas do poeta, na antiga Ridge Road. Mas a casa já não existe e são poucos os indícios da rua que Pessoa terá conhecido no fim do Século XIX: dum lado e doutro da longa estrada vi apenas casas e prédios modernos rodeados por muros altos e arame farpado, bombas de gasolina, lojas e armazéns. Voltámos para trás e atravessámos a zona rica e branca de Essenwood para desembocar na St. Thomas Street. É aí que fica o Durban High School, onde Fernando Pessoa estudou entre 1899 e 1904.

Nuns semáforos, estávamos nós a tentar perceber se o colégio ficaria acima ou abaixo do cruzamento onde nos encontrávamos, fomos abordadas por uma mulher sexagenária, branca, de olhos claros e chamada Sandra — sim, Sandra como eu — que interrompeu a sua caminhada com bastões para nos oferecer ajuda. Intrigada com a nossa determinação em visitar um colégio exclusivo para rapazes, começou por avisar-nos que a instituição estava fechada por ocasião das férias de Inverno. Mas depois quis saber por que razão queríamos tanto lá ir. Quando lhe expliquei que éramos portuguesas, que estávamos a fazer uma volta ao mundo que tinha como mote a lusofonia e que queríamos conhecer a escola onde tinha estudado um dos nossos maiores poetas, Sandra abriu os olhos com o tamanho da surpresa: nunca tinha ouvida falar desse tal de Fernando Pessoa. Mas, contagiada pelo nosso entusiasmo e pela nossa história, fez questão de nos acompanhar até à entrada da escola fechada e ajudar-nos a conseguir autorização para uma visita.

Não foi preciso grande esforço: o porteiro, habituado à visita de portugueses com o mesmo propósito que o nosso, escancarou o sorriso e o portão e acompanhou-nos ele mesmo aos pontos mais significativos. Percorremos, então, os espaços amplos e estranhamente silenciosos da grande escola para avistar o painel de azulejos com uma estrofe de Pessoa inaugurado por Mário Soares, um retrato emoldurado desenhado por Júlio Pomar e, cá fora, em destaque num dos principais pátios do recinto, um busto do poeta em bronze. Desse ponto, avistava-se o campo relvado, lugar para partidas de râguebi e críquete disputadas entre alunos. E para lá dos muros da escola, a cidade de Durban a espraiar-se colina abaixo até ao oceano.

O último destino do nosso périplo pessoano em Durban era a baixa da cidade, onde fica a Praça Pessoa. Mas antes disso, fomos até ao apartamento da Sandra que nos convidou para tomar café, conhecer o seu marido e conversarmos mais sobre a aventura que eu e a Nilza havíamos começado quatro meses antes. Entre chávenas e bolachas, ainda tivemos tempo para ver fotos de família, saber dos filhos e dos netos, dos episódios mais felizes e das dificuldades ultrapassadas, assim como da paixão da Sandra pelas terapias alternativas. E rimo-nos desta nova coincidência: não só partilhávamos o nome, como tínhamos o Reiki em comum.  Por último, ainda procurámos na internet a localização exacta da Praça Pessoa, que tanto a Sandra como o marido desconheciam. Uma vez identificado o sítio, a Sandra ofereceu-nos boleia e partimos as três em direcção a um outro busto do poeta.

À medida que o carro se aproximou da baixa da cidade, percebemos que a Sandra não ia connosco apenas movida pela curiosidade: na verdade, não tinha qualquer intenção de nos deixar ir sós a uma zona de Durban que ela mesma não frequentava havia anos. Os edifícios degradados, o lixo e os sem-abrigo eram apenas três sinais do perigo latente. Nos quinze minutos que demorámos entre o parque de estacionamento, a praça e o regresso ao carro, não vimos um único branco e a forma como fomos olhadas enquanto registávamos o momento com fotografias apressadas acentuou a sensação de desconforto. Abandonámos o lugar rapidamente e Pessoa, rodeado de gente ociosa sentada no muro que delimita a praça, ficou de novo entregue a um anonimato que não merece.

Antes de nos despedirmos, ocorreu-me perguntar à Sandra se saberia de alguma actividade a que pudéssemos associar-nos no dia seguinte. A 18 de Julho assinala-se o Mandela Day e nesta data, que seria a do seu aniversário, pessoas em todo o globo e particularmente na África do Sul assumem a responsabilidade de contribuir para um mundo melhor levando a cabo uma boa acção em prol da comunidade. Ocorreu-lhe, nesse momento, levar-nos até ao hospício onde é voluntária há mais de vinte anos e onde providencia terapias alternativas aos internados. A maior parte das tarefas para o dia seguinte estavam distribuídas pelos muitos voluntários pontuais, mas o quarto dos brinquedos frequentado pelas crianças que acompanham familiares em dias de visita estava a precisar de uma atenção urgente. Na manhã seguinte ficámos encarregues de arrumá-lo.

Não foi coisa que tivesse demorado muito tempo: em pouco mais de hora e meia a divisão ficou organizada e os brinquedos irremediavelmente partidos colocados no lixo. Por essa altura, já a manhã estava a chegar ao fim, a Sandra veio ter comigo e perguntou-me se eu não gostaria de me juntar a ela numa última sessão de Reiki. O caso era particularmente delicado, já que o paciente, recém internado e muito jovem, tinha recusado qualquer ajuda noutras ocasiões. Mas naquele dia, o Dia de Mandela, um dia de esperança, ele disse que sim e eu entrei num quarto onde se morria.

Siabonga — Sia como toda a gente o chamava com carinho — era um menino de 18 anos, magérrimo, a quem tinham amputado um braço e que lutava com muita dor por cada golfada de oxigénio engarrafado que inspirava. Porque estava em tronco nu, pude ver que qualquer coisa artificial palpitava sob a pele do seu peito, junto ao coração. Ao pescoço trazia um daqueles colares multicoloridos feitos de elásticos, tão em voga na altura. Todo e qualquer movimento era feito com extrema lentidão e implicava um esforço sobre-humano: erguer o tronco com a ajuda de almofadas ou sentar-se na beira da cama provocava um sofrimento que a morfina já não atenuava. Encontrámo-lo visivelmente agitado, mas a música que a Sandra pôs a tocar, o incenso que perfumou o quarto e o calor das nossas mãos acalmaram-no aos poucos. De olhos quase sempre fechados e respiração serenada, falou apenas em duas ocasiões: pediu que a ventoinha fosse aproximada do seu rosto e elogiou o colorido das minhas pulseiras. Expliquei-lhe que as tinha comprado no decorrer da viagem e enumerei os países à medida que lhas mostrava. Quando deixámos o quarto, a Sandra alegrou-se pela ligação que se tinha estabelecido entre mim e ele. Ficou combinado que na segunda-feira seguinte, o meu último dia em Durban, voltaríamos juntas ao hospício para uma nova sessão de Reiki com Sia.

Nessa segunda-feira Sia já não deu pela nossa presença. A morfina tinha-o levado para uma espécie de limbo. Na extremidade da cama, coloquei as minhas mãos sob a planta dos seus pés enormes e calosos e já não me concentrei numa energia que viesse aliviar as suas dores; concentrei-me numa energia que pudesse abraçá-lo e levá-lo rapidamente. Antes de sair do quarto, disse à Sandra que tinha trazido uma pulseira para lhe oferecer. “Ele está a morrer, Sandra, não vai perceber”, disse-me. Mas já sentadas no carro, olhou para mim e perguntou “Queres ires dar-lhe a pulseira?”. Voltei para trás. No quarto, alguns familiares de Sia esperavam em silêncio pelo fim. Os rostos pediam alívio e supus que a luta tivesse sido lenta, longa. Dirigi-me à cama sem falar a ninguém, peguei no seu braço esquerdo e inanimado e coloquei-lhe no pulso uma pulseira trazida de Timor. E então, baixinho, falei-lhe da ilha, da luta do seu povo, chorei e despedi-me. O Sia morreu cerca de duas horas depois, quando eu me dirigia ao aeroporto para rumar à Cidade do Cabo.

Esta é a história de como, de forma simples e do nada, aconteceu na minha vida desenhar-se uma linha surpreendente que une para sempre cinco pessoas: Fernando, Sandra, Nelson, Sia e eu.

Como escreve Clara Ferreira Alves, no tal conto que me marcou: “Certas viagens são um desígnio”.
Publicado em

A produtividade das férias

férias

Provavelmente todos nós já ouvimos dizer que quando vamos de férias ficamos restabelecidos e no regresso somos mais produtivos. A verdade é que apesar de estarmos conscientes dos benefícios de desligar completamente do trabalho durante as nossas férias, nem sempre o fazemos. No meu caso, sempre cultivei o hábito de tentar desligar 100%. Mas… nem sempre é fácil. Por vezes precisamos que as condições exteriores nos preguem uma partida. Dizem que à medida que as nossas carreiras vão sendo mais exigentes, vamos perdendo a “luxúria” de nos podermos afastar do trabalho. A verdade é que acima de tudo, o que perdemos é a capacidade de dizer NÃO. A vida continua e não temos que estar presentes em tudo o que acontece. Essa é a verdade nua e crua.

Este mês, gostava de partilhar a história de umas férias que, embora de forma não planeada, acabaram por ser extremamente revigorantes e desligadas do “mundo real”. Não foram num resort nem num retiro sabático. Foram numa autocaravana, sem destino e sem luxos.

A história é esta…

Um amigo comprou uma autocaravana. Por coincidência, eu tinha marcado férias para essa altura. Durante 10 minutos em que almocei com esse amigo, traçámos todo o nosso plano de férias. Que se resumia ao seguinte: “Então saímos daqui na sexta depois de almoço e vamos em direção a Sul. Depois… voltamos no outro domingo seguinte.” Este era todo o nosso plano de férias: 2 casais, uma caravana, e muita boa disposição.

Olhando com mais atenção, sobressaem aqui 3 características que todos prezamos: a liberdade, o “descompromisso”, e a capacidade de estar confortável na incerteza. A nossa única certeza era de que estaríamos bem independentemente do percurso. Ficaríamos os dias que quiséssemos, onde quiséssemos, não queríamos sequer o compromisso de tomar decisões. Não há nada de especial neste conceito. No entanto… há algo de muito especial neste conceito.

Quando pensamos em férias bem conseguidas, existem 5 tópicos (no máximo) que as descrevem em termos de qualidade. Em frente a cada necessidade, coloco o processo que deve ser conquistado:

1 – Repousar e recuperar energias de uma vida agitada ou de uma profissão exigente. –  Exige que se reduza o ritmo a que as coisas acontecem durante o dia.

2 – Recuperar do stress da vida urbana, e da pressão das decisões profissionais ou pessoais a que o dia a dia obrigam. – Exige que não exista pressão e que as decisões sejam fáceis e confortáveis. Devem privilegiar-se as escolhas sem sacrifícios. Tomar decisões é mentalmente desgastante quando há consequências no resultado. Quantas menos consequências houver sobre as decisões, mais flui o bem-estar.

3 – A vontade de trazer uma história para contar. – Exige que tenhamos oportunidade de acrescentar alguma coisa à nossa experiência de vida. A origem não importa. Este é dos tópicos mais relativos. Coisas como: ler mais livros, ver mais filmes, visitar lugares distantes ou próximos, conhecer pessoas e culturas novas, aprender um novo desporto, criar uma horta em casa, e por aí fora… constituem uma nova história para a nossa vida. Algo que nos acrescentou. Por vezes a dificuldade é sabermos valorizar essas pequenas coisas no nosso interior. É importante “saber olhar”.

4 – Passar tempo com os que amamos – Exige ter tempo mas, acima de tudo, saber desfrutá-lo. Desfrutar, implica estar envolvido com o momento presente. Saber estar perto dos que amamos e passar tempo com eles. Mesmo que seja em silêncio, a partilhar um pôr do sol com a nossa cara metade ou os nossos maravilhosos filhos. Queremos estar inteiros, no simples acto de “estar” com os que amamos.

5 – Sentir boas emoções. – Exige que saibamos ter prazer nos momentos presentes. Permitir que “o agora” nos preencha por completo. E sermos inteiros no que fazemos. Este ponto está em cada um dos pontos anteriores. É o prazer.

Estas férias despreocupadas pontuaram muito alto em todos os tópicos que referi. O que me leva a dizer: adorei estas férias e sinto-me ótimo e revigorado.

A vida numa caravana acontece devagar. Durante estes 10 dias, ninguém usou expressões como “depressa” ou “estamos atrasados”. Nunca estávamos atrasados porque não tínhamos que chegar a lado nenhum. Nunca tínhamos pressa porque o prazer era o presente e não o “amanhã” ou o “chegar lá”. Não tínhamos sequer etapas, (já que podíamos dormir em qualquer lugar que nos parecesse bonito).

O resultado foi que estivemos juntos. Visitámos barragens e praias, terras do Sudeste português e serras da Andaluzia Espanhola e absorvemos as paisagens. Fizemos yoga num parque natural e caminhadas de 3 horas por escarpas nas montanhas. Relaxei com as paisagens poéticas e fiquei ansioso com as minhas vertigens! Sentámo-nos em esplanadas a beber cañas e deitámo-nos com a mais maravilhosa paisagem em pano de fundo. Fomos divertir-nos para as festas da cidade de Córdoba e descobrimos as pequenas aldeias dos “pueblos blancos“. Estivemos em silêncio na viagem ou a jogar setas num bar à noite em Espanha. Apanhámos um dia inteiro de chuva que mal deu para sair da caravana… mas acabámos a jogar às cartas e a cozinhar algo diferente.

É impressionante a quantidade de coisas que podem ser feitas apenas em 10 dias, mesmo quando nada se planeou. E é incrível a sensação de estarmos a fazer tudo devagar quando a nossa casa segue connosco para todo lado.

Uma autocaravana é um grande passo para simplesmente “estar”. Mas depois, é preciso saber estar.

Claro que podíamos ter procurado locais com internet. Mas de repente escolhemos todos o NÃO. Não à internet, não a whatsapps, não a facebooks e não a telemóveis e emails. Nestas férias dei uma oportunidade ao “acaso” e dei um merecido descanso à minha mente.

Por 150 euros e 10 dias… Deixo os hotéis de luxo para quem os valoriza mais do que eu.

Na simplicidade é que está o ganho…
Publicado em

Lá fora, o mundo

mundo

Como encontrar o trabalho perfeito. Este é o título de um pequeno livro que li há um par de anos e que embora não me tenha feito revelações bombásticas, sistematiza uma série de factos e ideias de uma forma que achei muito útil. A determinada altura o autor, Roman Krznaric, cita uma ex-engenheira aerospacial que abandonou a NASA para se dedicar ao planeamento urbano. Que reviravolta, não é? Do seu testemunho retive a seguinte frase, que sublinhei a lápis: “(…) o que me facilitou realmente o mudar de carreira foi que nunca me passou pela cabeça limitar-me a uma profissão. Há tantas áreas interessantes, por que razão haveríamos de nos limitar a uma só? Acho que toda a gente se devia despedir pelo menos uma vez na vida”.

Quando li este livro havia mais de um ano que questionava seriamente a minha vida profissional. De tudo, o que mais me angustiava era a certeza de que tinha deixado de aprender coisas realmente novas. E a par disso, a cultura da empresa não me deixava antever grandes possibilidades de progressão. Queria, portanto, mudar. Isso era certo. Mas para onde, para fazer o quê e em que moldes?

Quando exercemos durante muito tempo as mesmas funções num mesmo lugar sofremos de dois efeitos perniciosos: primeiro passamos a achar que não há mais onde trabalhar senão ali; depois julgamos que nunca mais seremos capazes de fazer outra coisa. Se a juntar a isto tivermos a sorte (ou o azar!) de integrar uma empresa sólida e estável, ficamos acomodados e, logo, tolhidos. Como diz um grande amigo meu, “o conforto pode ser uma coisa lixada!”.

Nesta fase da minha vida ter-me-ia dado jeito ler um outro pequeno livro — com o título Como mudar o mundo — onde o autor explica que um dia, para ter uma noção mais concreta das suas aptidões, elaborou uma lista com a sua “experiência profissional, incluindo também aquilo que havia feito apenas como passatempo, trabalho de férias e ainda tarefas desgastantes”. Ironicamente, li o livro e fiz minha lista há poucos dias, depois de me ter despedido pela terceira vez na vida. E confesso que o exercício contribuiu para aumentar bastante a minha autoestima.

Houve momentos em que me senti menor por nunca ter sido uma pessoa orientada para a construção de uma carreira. À minha volta há muita gente empenhada nisso, na carreira. Eu não estou e só há pouco tempo é que me apaziguei com esse facto. Com o facto de me ter deixado vogar ao sabor das oportunidades que surgem e das paixões que estas me espoletam.

Gosto de trabalhar, preciso de trabalhar para me sentir sã e válida e é através do trabalho que consigo duas das coisas que me são mais importantes: aprender continuamente e melhorar enquanto ser humano. Mas, embora trabalhe com brio e empenho até ao último dia, o trabalho nunca foi a minha prioridade. O trabalho é, no que me diz respeito, um meio que me permite alcançar outros fins. E para mim, os outros fins, os que verdadeiramente importam, têm estado sempre fora das quatro paredes de um escritório.

Não me arrependo de ter passado quase quinze anos na mesma empresa. Fui feliz no meu trabalho. E não só. Nesses quase quinze anos casei-me, fiz amigos para a vida, adoeci com uma leucemia, entrei em remissão graças a um autotransplante de medula óssea, divorciei-me, mudei de casa pela 13ª vez, intensifiquei o número de viagens, aprendi a fotografar, criei o Acordo Fotográfico, descobri o prazer da escrita e meti uma licença sem vencimento de seis meses para fazer uma volta ao mundo de mochila às costas.

Depois dessa grande viagem, alguns dos aspetos da minha rotina deixaram de fazer sentido. Como era de esperar, a forma como trabalhava e o estilo de vida que o trabalho implicava — picar o ponto e passar horas a fio entre quatro paredes, sentada na frente um computador — tornaram-se difíceis de suportar. No dia em que assinalei os seis meses do regresso a Portugal, resgatei da estante Projetar a Felicidade, o livro onde Paul Dolan afirma: “(…) enquanto poupar dinheiro para um dia que não chega é triste, desistir da felicidade agora para esperar a felicidade que nunca chega é verdadeiramente trágico”. Demiti-me um mês mais tarde.

Nos próximos textos é sobre tudo isto que quero refletir. Sobre as transformações, as mudanças, os rompimentos que nos permitem renascer e reinventarmo-nos, as viagens e os livros que nos abrem os horizontes, a família e os amigos que são os nossos pilares, os exemplos inspiradores que vêm dos outros e o mundo deslumbrante que, com todos os seus defeitos assustadores, espera por nós lá fora.
Publicado em

Um episódio de assédio sexual

assédio

“Assédio sexual: conjunto de atos ou comportamentos, por parte de alguém em posição privilegiada, que ameaçam sexualmente outra pessoa.” – Dicionário da Língua Portuguesa, Porto Editora

Em Março de 2016, quando comecei a preparar a minha primeira viagem ao Irão, pedi que me aceitassem como membro de um grupo no Facebook chamado “See You in Iran”. Fui rapidamente integrada na comunidade e estou muitíssimo grata por toda a ajuda que me tem sido providenciada através dos muitos contactos que tenho estabelecido por lá. Se as minhas duas viagens ao Irão foram um sucesso devo-o, em parte, à generosidade de todos os que compõem a comunidade “See You in Iran”, sejam eles iranianos ou de outras nacionalidades.

Este grupo — fundado em Agosto de 2015 e que caminha a passos largos para os 115 mil membros — tem como principais objectivos pôr em contacto a população local com viajantes que tencionam visitar ou já tenham visitado o país e, através da partilha de relatos livres de censura, desconstruir a injusta “iranofobia” ainda vigente. Porém, enganam-se aqueles que pensam que por lá se postam apenas fotografias de paisagens, monumentos, comida ou comentários simpáticos acerca dos amigos que se fizeram, da extrema afabilidade do povo iraniano ou do quanto as férias passadas no país foram perfeitas. Não, no “See You in Iran” também se discute política nacional (recentemente, postou-se sobre a eleição presidencial do passado dia 19 de Maio e a utilidade do voto nas condições em que é exercido), política internacional (desde as baboseiras do Trump à crise dos refugiados) ou a obrigatoriedade do uso do hijab, entre outros aspectos culturais, sociais e religiosos do país. Pode-se dizer que “See You in Iran” é um espaço de democracia virtual que não tem paralelo no Irão real.

Poucos dias depois de ter voltado da minha primeira viagem ao Irão (que correu lindamente e teria sido perfeita não tivesse eu sido detida e levada para uma esquadra em Teerão, uma história que contarei noutra ocasião), chegou-me, também via Facebook, o relato da viajante Alex Reynolds — uma jovem americana que anda a viajar pela Eurásia com o namorado holandês desde Fevereiro de 2016 — publicado num jornal online australiano, com o título “Iran wins the prize for high frequency harrassment”. No texto, Alex relata os múltiplos episódios de assédio sexual a que esteve sujeita durante a sua visita à antiga Pérsia, episódios que se sucederam a um ritmo nunca antes experimentado em qualquer outro país que tivesse visitado.

Dada a minha experiência inócua e sempre cordial com os homens iranianos, o testemunho de Alex surpreendeu-me. Tinha acabado de regressar a Portugal com a recordação de iranianos que não falavam comigo nem me olhavam nos olhos quando os abordava na rua para pedir indicações, que raramente me cumprimentavam apertando a mão (só mesmo os mais novos o ousam) ou que me cediam o lugar no metro mesmo que eu fosse sair na paragem seguinte. Tivesse eu, na altura, feito uma simples pesquisa com a expressão “sexual harassment” dentro do grupo “See You in Iran”, ou mesmo uma pesquisa no Google com as palavras “sexual harassment in Iran”, e teria percebido de imediato que o assunto era sério e tinha barbas. Ingenuamente, preferi ignorar a avalanche de reacções ao texto de Alex e pensar que ela tinha tido azar. Até ao dia em que voltei ao Irão e me aconteceu o mesmo.

Andava eu a passear sozinha no Jardim Dolat Abad — um exemplo máximo dos refinados jardins persas, que a UNESCO classificou como Património Mundial da Humanidade — quando, numa área mais remota, ainda que junto ao comprido tanque central do recinto, um grupo de cinco homens que estavam a trabalhar na limpeza do espaço me pediram, apontando para eles e dizendo apenas “foto?”, que lhes tirasse uma fotografia. Estavam todos sentados no chão, sobre uma manta, a fazer uma pausa para tomar chá. Não estranhei o pedido. Já me tinha sido feito dezenas de vezes por homens, mulheres e crianças quer nesta segunda visita ao Irão, quer na primeira viagem, há seis meses. Por isso acedi de boa vontade e tirei-lhes a fotografia. Agradeceram e ofereceram-me chá, que eu recusei com delicadeza. Um deles, que parecia ter funções de chefe e que vestia roupas mais finas, levantou-se e disse-me “selfie?” Outra vez nada de novo, já acontecera muitas, muitas vezes. Por isso, fiz a selfie com o meu telemóvel de boa vontade.

Foi então que o cavalheiro, que não falava uma palavra de inglês, começou a falar comigo em farsi. Apontava para ele e fazia um gesto que parecia indicar-me que se ia embora. Encolhi os ombros, abanei veementemente a cabeça e acompanhei os gesto com as palavras “Lamento, mas não entendo, não falo farsi” (em inglês), numa tentativa de deixar bem claro que não o entendia. Mas o senhor não desistiu. Continuou a falar e eu continuei a dizer que não entendia à medida que começava a afastar-me. Os outros, sentados no chão, riam-se e trocavam olhares cúmplices. Nesta fracção de segundos intuí que alguma coisa não estava bem. Até que o homem que tentava comunicar comigo, num esforço último para se fazer entender, se debruçou um pouco mais sobre mim, me olhou intensamente, apontou para ele, depois para mim, depois para longe e recorreu às duas mãos para fazer um gesto ordinário, universal e inequívoco. Foi então que entendi o que queria: estava a sugerir que fosse com ele para outro lugar para que nos envolvêssemos sexualmente. Primeiro fiquei incrédula e depois furiosa. Levantei a voz, fiz cara de nojo e chamei-lhe de tudo, em português e em inglês. A risota dos outros, em vez de parar, intensificou-se, o que achei insultuoso. Nisto aproximaram-se duas iranianas — com quem tinha tirado uma fotografia meia hora antes e que falavam um pouco de inglês — que me perguntaram o que se estava a passar. Contei-lhes o sucedido. Disseram qualquer coisa ao homem — a meia voz e de cabeça em baixo, sem o encarar —, que fugiu por entre os arbustos. Não voltei a vê-lo. Por fim, as senhoras pegaram num dos meus braços e sugeriram que continuasse a caminhar e os ignorasse. Foi o que fiz ao mesmo tempo que, ainda a tremer, apagava as fotografias do meu telemóvel. Mas não foi o suficiente para me recompor: o episódio (que embora tenha sido o mais grave, não foi o último) transtornou-me e demorei um par de dias a refazer-me.

No calor do momento, a experienciar um misto de nojo e desilusão, acedi ao grupo “See You in Iran” e postei o seguinte: “Segunda vez no Irão, primeiro episódio de assédio sexual”. A torrente de reacções e de comentários foi de tal ordem que os administradores do grupo tiveram de fechar o post a interacções. Mais tarde, já em Portugal, e por causa de todas as generalizações, conclusões, deduções e acusações infundadas que me fizeram, investi um par de horas a redigir um texto em inglês onde forneci detalhes sobre o sucedido e respondi, globalmente e na medida do possível, às centenas de comentários ao post anterior. Sobretudo porque queria deixar claro que muita gente tinha posto na minha boca palavras que jamais proferiria, me atribuíram ideias, valores atitudes que jamais adotaria e inferiram críticas sociais, políticas e religiosas que, de facto, não expressei. Regista-se nova torrente de reacções. Desta vez, os administradores do grupo, numa clara tomada de posição, recorrem também à conta do Twiter do “See You in Iran” para argumentar que o assédio sexual no contexto do turismo e das viagens não deve ser banalizado. “Dizer que acontece em todo o lado não é argumento. Grita e denuncia”, incentivaram eles.

A maior parte das pessoas que reagiram aos meus posts, iranianas ou não, lamentaram profundamente que eu tivesse vivido aquele triste episódio. Muitas quiseram saber se eu estava bem, ofereceram-me ajuda e até companhia caso eu ainda passasse pelas suas cidades e me sentisse vulnerável. Surpreendeu-me, em particular, a quantidade considerável de iranianas — a viver no país ou emigradas — que denunciaram também o constante assédio sexual a que são ou foram submetidas no Irão. Algumas turistas partilharam, ainda, experiências semelhantes à minha ou ainda piores.

Porém, o que foi verdadeiramente repugnante e quase me deixou mais chocada do que a atitude do homem que me assediou, foi constatar o elevado número de comentários misóginos, sexistas, machistas, ignorantes e desculpabilizantes vindos de homens e mulheres de todas as origens e faixas etárias. Para eles o assédio sexual não é assunto e que o releguem ao estatuto de ninharia, de coisa que nem sabem bem o que é, revolta-me até à mais ínfima partícula do meu corpo. A absoluta falta de empatia manifestada por esta gente chega a ser doentia. Deixo-vos aqui algumas das opiniões manifestadas:
“E então? Acontece em qualquer lugar do mundo / Só queres chamar a atenção / Que drama queen / És uma exagerada / Oh meu Deus! Como pudeste sobreviver a isso?! Chamaste uma ambulância? / Insultas e denigres o Irão em tempos sensíveis para o país / Lanças pânico injustificado / Assustas centenas de potenciais turistas / O método não funciona? É assim que tenho tentado arranjar uma namorada / Talvez o teu comportamento o tenho justificado / Como estavas vestida? / Achou-te bonita, qual é o problema? / Em São Paulo uma prima minha quase foi violada por um grupo de homens e não anda para aí a queixar-se / Apalparam-me as mamas na Tailândia e não me fui queixar no Facebook / Passei pelo mesmo no Camboja e não me queixo / Já passei por pior em dois anos na Rússia. Cresce! / Encara o assunto como um elogio pouco eloquente / Não podes culpar um país inteiro / Estás a reduzir a tua experiência no Irão a isto / Pelo menos o homem teve a decência de te pedir / Não tenho a certeza que isso seja assédio sexual / As feministas levam sempre este assunto demasiado longe / Por causa do teu post mais de vinte pessoas foram banidas do grupo / Foi a primeira vez que um homem pediu para ter relações sexuais contigo? / Fazes com que isto pareça um exclusivo do Irão. És tão ignorante! / Honestamente, acho que rir disto é mais proactivo e ajuda mais a pessoa a restabelecer-se do que ter pena dela / Pelo menos não foste violada nem morta.”

Sim, eu sei que o assédio sexual existe em qualquer parte do mundo. Não sou ingénua. Quando era adolescente fui sexualmente assediada por um colega na escola. A minha mãe teve de intervir. Bastou um telefonema para que a perseguição de meses terminasse. Está perdoado há muito, mas não está esquecido de forma nenhuma. E uma vez, enquanto caminhava na rua, um homem que se cruzou comigo no passeio apalpou-me o peito. Foi há mais de 30 anos e também não esqueci. Mas assim como nunca me passou pela cabeça deduzir que todos os homens portugueses são tarados por causa de uma mão cheia de más experiências, também o que vivi em Yazd não me permite concluir que todos os homens iranianos são uns pervertidos. Isso seria estúpido e injusto. E não me parece que estes sejam adjectivos que me assentem.
Não, nunca tinha sido sexualmente assediada fora do país. E já visitei mais de quarenta países em todos os continentes. A experiência mais próxima do assédio sexual que vivi foi em Goa, na Índia. Chegavam à praia excursões de indianos com o único propósito de fotografar e filmar com os telemóveis mulheres ocidentais em biquíni (sem pedir autorização, claro!) e às vezes aproximavam-se demasiado dos seus alvos. Honestamente, não foi coisa que me incomodasse por aí além, mas vi muitas turistas furiosas. Sempre que alguma mulher comenta comigo que tenciona passar uns dias na praia em Goa, partilho esta minha experiência. É o que passarei a fazer em relação ao que vivi no Irão.

O assédio sexual é, no meu entender, um assunto sério e grave em qualquer contexto. Não tenho a intenção de desvalorizá-lo. Denunciá-lo-ei sempre que me acontecer, aconteça onde acontecer. E incentivarei todos os que vivem experiências destas — mulheres ou homens — a fazê-lo também. Basta de fazer de conta que não ouvimos ou que não vimos. Basta de baixar os olhos e continuar a caminhar. É preciso gritar, denunciar e educar.

A maior parte de vós nunca me ouvirá falar de viva voz acerca do que sinto pelo Irão. Mas muitos de vós podem ler nestas crónicas ou nos textos que publico no Acordofotografico.com os meus sentimentos pelo país. Não posso negar um misto de emoções: se por um lado não digiro a teocracia, o patriarcado, a falta de liberdade e o rebaixamento generalizado das mulheres, por outro sinto-me fascinada pela história, pela milenar cultura persa e, acima de tudo, pelo povo ultra-acolhedor. Só isso justifica que me tenha arrepiado de novo, vezes sem conta, neste regresso, sempre que alguém me dizia na rua “Bem-vinda ao Irão!” Só isso explica que me tenha emocionado, grata, a cada gesto generoso de mulheres, homens e crianças. É por isso que digo com orgulho que tenho amigos iranianos. E é por isso defenderei sempre o povo iraniano e incentivarei as viagens ao Irão.

No que me diz respeito, a vontade de lá ir as vezes que quiser (desde que obtenha o visto…) não foi de todo beliscada. Antes pelo contrário. Não vejo a hora de voltar levando comigo a lição aprendida.